Quando os barcos se alinham no meio do Rio Negro à noite e todas as luzes são apagadas, algo revelador acontece: a maioria das pessoas não consegue ficar em silêncio. É o que observa Kamila Camilo em entrevista à IstoÉ Sustentável. A especialista, que desenvolveu experiências de imersão em territórios preservados, aponta que o desconforto com a ausência de ruídos externos expõe uma dependência preocupante e revela um dos grandes obstáculos da agenda climática: o distanciamento institucionalizado entre as pessoas e a natureza.
“A gente lava a louça ouvindo podcast, vai para a academia escutando música, dorme assistindo TV. Onde tem o silêncio?”, questiona. Quando os barulhos externos cessam, os pensamentos internos se amplificam, e muitas pessoas não estão preparadas para esse encontro consigo mesmas. Durante as experiências no Alto Rio Negro, participantes apresentaram desestabilização emocional, precisando literalmente de abraços e contenção física para se sentirem seguros. “O nosso sistema nervoso não descansa. A gente está o tempo todo em estado de luta e fuga.”
Kamila identifica um processo histórico que transformou o distanciamento da natureza em política pública. “Para fazer a universalização de serviços públicos da forma mais barata possível, ao invés de personalizar uma escola para a necessidade de um bairro, eu preciso comprar material de construção mais barato”, analisa. O resultado é a arquitetura brutalista, as paredes cinzas, os cortes de árvores e a eliminação de hortas escolares para reduzir custos de manutenção. “O projeto de afastar as pessoas da natureza é um projeto de redução de custos.”
Esse afastamento tem consequências diretas. Enquanto as camadas sociais menos favorecidas associam a natureza à sujeira, grupos mais privilegiados investem em atividades ao ar livre. A vida urbana materializa esse distanciamento: “A gente acorda numa caixa de concreto, põe o pé num sapato de borracha, veste uma roupa de material plástico”, incluindo uma alimentação cada vez mais sintética. O resultado é uma geração que expressa “saudade da poluição” após dias em contato com ar puro. Sem relação afetiva com os espaços naturais, não há mobilização genuína para a sua proteção.
Do individual ao sistêmico: três camadas de transformação
Para Kamila, a transformação necessária opera em três níveis, inspirados na Teoria U. O primeiro é “eu comigo mesmo” – as transformações na própria casa, como composteira no condomínio ou troca de lâmpadas, iniciativa que economiza 20% da conta de energia. O segundo é “eu com o outro”, reforçando laços comunitários perdidos na vida urbana. “Demorei dez meses para conhecer os meus novos vizinhos de porta”, admite. O terceiro nível é “eu com a sociedade” – quando as mudanças individuais se consolidam, é possível pensar em ações coletivas.
Para os profissionais de sustentabilidade, o alerta é direto: “A sua caneta só vai refletir aquilo que você é por dentro”. Não é possível traduzir conceitos em políticas sem primeiro construir essas práticas em casa. “A internet é um lugar de inspiração. O convite sempre precisa ser para ir fazer na vida real.”
Sobre transformações sistêmicas, Kamila é enfática quanto à necessidade de análise dos riscos climáticos. “Se mais de 60% dos negócios do mundo são altamente dependentes da natureza, a perda de biodiversidade é a perda da sustentabilidade do seu negócio”, alerta. A economia brasileira depende de chuvas regulares. A escassez hídrica coloca em risco a produção de café, chocolate e açaí. “Quando a gente olha para a logística e ninguém coloca na conta os eventos climáticos extremos, a perda de estradas, a conta não fecha”, analisa.
Para ela, o setor de seguros tem um papel crucial nessa transformação. “É quem pode olhar para cada risco e atribuir valor. É o que vai dizer quanto custa se não houver uma medida de adaptação.” A precificação, porém, não pode aumentar as assimetrias sociais. “Essa conta precisa ser feita a partir da proteção da vida, da conservação, da garantia da regeneração dos sistemas”, defende.
Oceanos em colapso e a frequência dos desastres
Entre os riscos mais prementes estão os oceanos. Kamila menciona o ponto de não retorno dos recifes de corais, com consequências devastadoras para toda a cadeia alimentar. Cerca de 25% da biodiversidade marinha depende dos recifes como berçários. “Uma parte considerável do mundo vive de consumir proteína que vem dos oceanos”, pontua.
O oceano absorve 50% das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO2, todos os anos. “A gente está tentando implementar tecnologia de remoção de carbono do ar, mas o oceano faz esse trabalho de graça”, destaca. A acidificação do mar, somada à projeção de que até 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos, compromete gravemente essa capacidade.
Em janeiro de 2024, Kamila atuou como embaixadora do Arctic Base Camp, iniciativa que monta um acampamento científico em Davos durante o Fórum Econômico Mundial. O objetivo é trazer participantes para conversarem com cientistas sobre os impactos da perda de gelo glacial. A experiência revelou conexões surpreendentes: “Existe uma relação intrínseca com a Amazônia”. O problema é que a sociedade desenvolveu uma “visão super orientada para o aqui e agora, quando precisamos de uma visão mais aberta”. Os ecossistemas globais estão todos interconectados.
O padrão histórico de desastres espaçados está no passado. “Não é mais sobre ter tido um desastre em 2004 e outro em 2024. Agora teremos um em 2024, um em 2026, um em 2027”, ilustra. A frequência se acelera, e as pessoas não terão tempo de recuperação. Ela cita uma amiga filipina que enfrentou quatro tufões em um mês. “Quem se recupera disso, a não ser migrando para outro país?”
A adaptação não é mais opção, é a única saída. Empresas e governos precisam incorporar essa realidade em todo planejamento. Para Kamila, a reconexão com a natureza não é romantismo, mas condição essencial para a sobrevivência econômica e social. “A gente é ecodependente. Se tem uma turma que tem capacidade de fazer diferente, é a humanidade. Está nas nossas mãos”, resume Kamila.