A Argentina, que durante anos foi vista como uma referência global ao ser o primeiro país a criar uma lei específica para a proteção de seus glaciares, vive hoje um retrocesso que ecoa por todo o continente. O avanço de uma reforma legislativa promovida pelo governo de Javier Milei promete abrir áreas antes intocáveis para a exploração mineral, gerando um alerta vermelho entre cientistas, ambientalistas e gestores de recursos hídricos.
A proposta central da reforma é a redefinição técnica das áreas protegidas. Ao restringir o conceito do que é legalmente considerado uma geleira ou área periglaciar (terrenos congelados que funcionam como reguladores hídricos), o governo retira o escudo jurídico de milhares de quilômetros quadrados na Cordilheira dos Andes. O objetivo claro é destravar investimentos em mineração, especialmente de ouro, cobre e lítio, setores fundamentais para a entrada de divisas no país vizinho.
Leia também:
Satélite da Nasa flagra derretimento de geleira e formação de ilha no Alasca
Entenda os impactos de 1,5 °C e 2 °C de aquecimento global
O conflito entre o ouro e a água
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o custo desse desenvolvimento pode ser impagável. As geleiras não são apenas massas de gelo cênicas; elas são “caixas d’água” estratégicas que garantem o fluxo dos rios durante as secas. “Flexibilizar a proteção em um momento de crise climática global é ignorar que a água é o ativo mais valioso do século XXI”, afirmam pesquisadores argentinos.
A mineração de grande escala consome volumes gigantescos de água e oferece riscos de contaminação por metais pesados em bacias que alimentam cidades e áreas agrícolas vitais. A mudança na lei pode comprometer o abastecimento de províncias como Mendoza e San Juan, que já enfrentam anos de seca severa.
Impacto além das fronteiras
A questão não é meramente interna. A bacia do Rio da Prata, que irriga grande parte do agronegócio brasileiro, paraguaio e uruguaio, depende do equilíbrio ecossistêmico dos Andes. Alterações drásticas no ciclo de degelo e na qualidade da água na Argentina podem ter efeitos em cascata na hidrografia de toda a região sul do continente.
Enquanto a Argentina tenta equilibrar suas contas públicas através do extrativismo, a comunidade internacional observa com temor o desmonte de uma das legislações ambientais mais robustas do mundo. O debate agora se desloca para as cortes internacionais, onde o direito humano à água deve ser confrontado com a soberania econômica nacional.