Aves marinhas ingerem poluentes proibidos há décadas, revela estudo

A pesquisa analisou espécies em diferentes oceanos, comprovando que a poluição química é onipresente, mesmo em áreas remotas

Ave marinha sobre rochedo
Foto: Freepik

A poluição dos oceanos atingiu um patamar onde nem as proibições internacionais de substâncias tóxicas parecem ser suficientes para proteger a fauna. Um estudo recém-publicado, apoiado pela Fapesp, revela que aves marinhas de diversas regiões do globo estão ingerindo quantidades consideráveis de poluentes químicos — muitos dos quais, como o pesticida DDT, foram banidos na década de 1970.

A investigação aponta que o plástico atua como um “cavalo de Troia” nos oceanos. Além de causarem danos físicos por ingestão, os resíduos plásticos absorvem e concentram Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) presentes na água, que são posteriormente liberados no organismo das aves após o consumo acidental.

Resumo

  • Estudo internacional com participação brasileira revela que aves marinhas estão ingerindo poluentes orgânicos persistentes (POPs);

  • Substâncias como o DDT, proibidas há décadas, continuam presentes na cadeia alimentar por meio da fragmentação de plásticos;

  • A pesquisa analisou espécies em diferentes oceanos, comprovando que a poluição química é onipresente, mesmo em áreas remotas;

  • O acúmulo de substâncias tóxicas compromete a reprodução e o sistema imunitário das aves, indicadores da saúde dos oceanos.

Onipresença da contaminação

O estudo analisou amostras de tecidos e conteúdos estomacais de aves em locais que variam de ilhas tropicais a regiões polares. O dado mais alarmante é a presença de químicos sintéticos em espécies que habitam zonas remotas, demonstrando que a circulação oceânica e a cadeia alimentar transportam a toxicidade para além das fronteiras industriais.

“Essas substâncias são chamadas de ‘poluentes eternos’ porque não se degradam facilmente no ambiente. Elas se acumulam na gordura dos animais e aumentam de concentração à medida que subimos na cadeia trófica”, explicam os pesquisadores.

Impacto biológico e vigilância

Embora a ingestão de plástico seja visível, o perigo invisível dos aditivos químicos e poluentes absorvidos é o que mais preocupa os cientistas. A exposição contínua a essas substâncias está associada a:

  • Desregulação endócrina: alterações hormonais que afetam o comportamento migratório;

  • Falhas reprodutivas: cascas de ovos mais finas e menor taxa de sobrevivência dos filhotes;

  • Imunossupressão: maior vulnerabilidade a doenças e parasitas.

A descoberta reforça a urgência de políticas globais que não apenas limitem o descarte de novos resíduos, mas que também abordem a remediação da carga química já presente nos mares. As aves marinhas, como sentinelas do ecossistema, estão enviando um sinal claro de que a saúde dos oceanos está em estado crítico.