Belo Monte, 10 anos: o balanço de uma década de impasses no coração da Amazônia

Uma década após o início da operação, a megausina hidrelétrica continua no centro de batalhas judiciais por descumprimento de condicionantes e danos irreversíveis à biodiversidade e aos povos tradicionais

Usina de Belo Monte
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Em maio de 2026, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte completa dez anos de operação comercial sob uma névoa de controvérsias que o tempo não foi capaz de dissipar. Projetada para ser a terceira maior hidrelétrica do mundo e um pilar da segurança energética brasileira, a estrutura cravada no Rio Xingu, no Pará, consolidou-se também como um dos maiores casos de passivos socioambientais da América Latina. O que se vê hoje, uma década após o giro das primeiras turbinas, é um cenário de “desenvolvimento” que falhou em integrar as comunidades locais e proteger o ecossistema mais sensível da bacia amazônica.

Resumo

  • Impacto hidrológico: o “Hidrograma de Consenso” reduziu drasticamente o fluxo de água na Volta Grande do Xingu, afetando a fauna aquática.

  • Segurança alimentar: ribeirinhos e indígenas relatam escassez de peixes, base da dieta local, devido às mudanças no regime do rio.

  • Passivo social: milhares de famílias deslocadas ainda aguardam reassentamentos definitivos ou indenizações justas por perdas de meios de subsistência.

  • Conflito jurídico: o Ministério Público Federal e órgãos ambientais mantêm processos ativos por descumprimento de contrapartidas socioambientais.

  • Clima e eficiência: pesquisadores questionam a eficiência energética da usina diante das secas prolongadas na Amazônia causadas pela crise climática.

O principal ponto de fricção técnica e ambiental reside no chamado Trecho de Vazão Reduzida (TVR), na Volta Grande do Xingu. Para que as turbinas de Belo Monte funcionem com capacidade máxima, cerca de 80% da água do rio é desviada para um canal artificial. O resultado é um ecossistema que vive em um estado de seca permanente forçada. Cientistas e órgãos como o Ibama têm alertado sistematicamente que o “Hidrograma de Consenso” — o volume de água que a concessionária Norte Energia é obrigada a liberar — é insuficiente para manter os ciclos de vida das espécies de peixes e a reprodução da flora ciliar.

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O impacto biológico traduz-se diretamente em uma crise humanitária para os povos indígenas e ribeirinhos. Para quem vive da pesca, o Xingu não é apenas um cenário, mas um mercado e uma despensa. Relatórios recentes de organizações de direitos humanos e movimentos sociais apontam que a segurança alimentar dessas populações foi severamente comprometida. Espécies emblemáticas, como o acari-zebra, correm risco de extinção, enquanto peixes de consumo regular desapareceram de trechos onde antes abundavam. Sem o peixe e sem o rio em seu fluxo natural, a cultura ancestral desses povos sofre um processo de erosão acelerado.

No campo social, a herança de Belo Monte em Altamira e cidades vizinhas é marcada por uma urbanização caótica. O inchaço populacional ocorrido durante o auge das obras não foi acompanhado por uma infraestrutura de saneamento e segurança proporcional. Dez anos depois, o Ministério Público Federal (MPF) ainda move ações buscando garantir que as famílias remanejadas de palafitas e áreas de inundação tenham acesso a bairros com condições dignas de habitação. O reassentamento coletivo urbano, embora existente, é criticado pela falta de conexão com as áreas de trabalho e pela fragilidade dos serviços públicos oferecidos.

Sob a ótica da eficiência energética, o debate ganha contornos climáticos. Com o aumento da frequência de secas extremas na Amazônia — um fenômeno agravado pelo desmatamento e pelo aquecimento global em 2026 — Belo Monte frequentemente opera com apenas uma fração de sua capacidade instalada. Críticos argumentam que o custo ambiental e social pago foi desproporcional ao benefício real de geração, especialmente nos meses de estiagem, quando a usina mal consegue suprir a demanda regional.

A concessionária Norte Energia, por sua vez, defende que cumpriu a vasta maioria das condicionantes e que os programas de monitoramento ambiental são os mais rigorosos do país. Entretanto, para os observadores externos e para os tribunais, a conta ainda não fechou. A renovação da licença de operação da usina permanece como um campo de batalha administrativo, onde se exige que novos investimentos compensem o que uma década de exploração não foi capaz de mitigar. Belo Monte chega aos seus dez anos não como um troféu de engenharia, mas como um lembrete persistente de que o custo da energia não pode ser medido apenas em quilowatts, mas nas vidas e nas águas que são deixadas para trás.