O que acontece com o gás liberado pela decomposição do lixo nos aterros sanitários pode ser a chave para a descarbonização da indústria brasileira. A Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina e parte do grupo Urca Energia, está transformando esse passivo ambiental em combustível renovável certificado. Com 12 unidades operacionais em sete estados e produção atual de 160 mil metros cúbicos por dia, a companhia projeta investir R$ 926 milhões até 2028 para atingir 650 mil metros cúbicos por dia e faturamento de R$ 2,5 bilhões. O biometano produzido pela empresa reduz até 99% das emissões de gases de efeito estufa em relação ao uso de diesel e gás natural, o que faz com que a empresa o considere o “biocombustível da vez” no mercado brasileiro.
A seguir, leia a entrevista com Tayane Vieira, diretora de ESG da Gás Verde, sobre o processo de produção, a importância dos certificados de garantia de origem e as oportunidades de mercado para essa tecnologia que une gestão de resíduos e descarbonização.
O que é o biometano e como ele é produzido? O biometano é um biocombustível produzido a partir da decomposição de matéria orgânica. Na Gás Verde, utilizamos resíduos sólidos urbanos – o lixo gerado nas casas que vai para os aterros. Nesses aterros, a matéria orgânica sofre a decomposição natural que libera biogás, com aproximadamente 50% de metano. Nossa planta de purificação captura esse biogás e o processa para elevar a concentração de metano para 95%, seguindo as especificações da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis);?. O gás metano é 25 vezes mais poluente que o CO₂, então essa captura resolve um passivo ambiental significativo.
Para quem é destinado o biometano produzido? Nosso biometano é destinado a clientes industriais e grandes multinacionais que precisam converter frotas ou substituir combustíveis fósseis. O biometano é intercambiável com o gás natural, podendo ser usado em qualquer equipamento que utilize GNV, com pequenas adaptações. Muitos táxis e aplicativos no Rio já abastecem com biometano sem saber, já que ele é misturado ao GNV nos postos.
Como funcionam os certificados de garantia de origem? Os certificados são fundamentais porque você não enxerga um gás. Eles rastreiam toda a produção, desde o aterro até o consumo final, comprovando que houve substituição de combustível fóssil por renovável. Seguimos o padrão GHG Protocolo, reconhecido mundialmente, e os certificados são auditados por empresas independentes. Isso permite que os clientes incluam essa redução de emissões em seus relatórios de sustentabilidade e inventários de carbono.
Qual a diferença entre certificados e créditos de carbono? A grande diferença é que o certificado atesta uma redução real das emissões, não apenas compensação. Com crédito de carbono, você pode continuar emitindo e compensar com projetos florestais. Já com o certificado de biometano, você troca diretamente combustível fóssil por renovável. Na jornada de descarbonização, o ideal é começar reduzindo de fato as emissões e compensar com créditos apenas o residual. A Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, reconheceu oficialmente os certificados de biometano como instrumento de descarbonização, trazendo segurança regulatória para o mercado.
Como funciona a lógica do certificado? Se o biometano já foi usado por um cliente, como ele pode compensar emissões de outro? Essa é uma dúvida comum, mas a lógica é simples: separamos a molécula física do atributo ambiental. Quando vendemos o biometano físico para um posto de combustível, por exemplo, ele só quer o poder calorífico para revender. Esse cliente não faz relatório de emissões, não é multinacional, então nos diz: “fiquem com o atributo ambiental, comercializem para quem quiser”. Nós então pegamos esse certificado, que representa a redução de emissões daquela produção, fazemos auditoria e oferecemos para empresas que precisam neutralizar emissões mas não podem comprar o gás físico – seja por distância das nossas plantas, seja por serem eventos temporários. Um exemplo é o Rock the Mountain, festival em Petrópolis (RJ), que há dois anos neutralizamos cerca de 3 mil toneladas de CO₂ por edição. Para um evento de poucos dias por ano, faz muito mais sentido usar certificados do que converter toda a infraestrutura energética. Isso evita dupla contagem, pois cada tonelada de CO₂ evitada é contabilizada apenas uma vez.
Como vocês garantem que a operação também é sustentável? Há dois anos convertemos toda a nossa frota interna para biometano. Não faria sentido vender um combustível renovável e fazer a distribuição com diesel. Utilizamos carretas movidas a biometano para transportar nosso próprio produto. Fazemos análise de ciclo de vida completa e publicamos anualmente nosso inventário de emissões pelo GHG Protocolo há quatro anos. Além disso, estamos construindo a primeira planta de CO2 verde do Brasil no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP), com apoio do BNDES, para aproveitar economicamente o CO2 que é subproduto da produção de biometano.
Quais as perspectivas para o setor? O biometano é o biocombustível da vez no Brasil. Se todo o potencial brasileiro fosse explorado, poderíamos reduzir em 70% a demanda de diesel no país. Temos um potencial enorme dos aterros sanitários e do agronegócio, com resíduos como a vinhaça. Multinacionais com metas de descarbonização estabelecidas por suas matrizes internacionais estão vindo ao Brasil e enxergando essa oportunidade. Entre nossos clientes estão Ambev – que se tornou a primeira cervejaria do mundo 100% movida a biometano –, além de Ternium, Henkel, Nestlé e L’Oréal. A demanda está crescendo no mercado voluntário, com empresas que entendem que esse é um instrumento eficaz para atingir metas ambientais.