A presença de resíduos de antibióticos em rios e lagos tornou-se uma “bomba-relógio” para a saúde global. O descarte incorreto e a falha nos sistemas tradicionais de tratamento de esgoto permitem que medicamentos utilizados por humanos e na agropecuária cheguem aos mananciais. No entanto, uma pesquisa desenvolvida no Brasil e apoiada pela FAPESP aponta para uma solução eficiente vinda da própria natureza: o uso de plantas aquáticas para filtrar esses poluentes.
Resumo
A poluição hídrica por resíduos de antibióticos é um desafio crescente para a saúde pública e a biodiversidade.
Cientistas brasileiros testaram a eficácia do aguapé (Eichhornia crassipes) na remoção de fármacos da água.
A planta não apenas reduziu a concentração de medicamentos, mas também diminuiu drasticamente os danos ao DNA de peixes expostos.
O método, conhecido como fitorremediação, apresenta-se como uma alternativa de baixo custo e alta eficiência para o tratamento de efluentes.
O estudo focou na espécie Eichhornia crassipes, popularmente conhecida como aguapé. Esta macrófita é famosa por sua capacidade de adaptação e por sua habilidade natural de absorver metais pesados e nutrientes em excesso. Agora, a ciência comprova que ela também é uma barreira potente contra fármacos específicos que causam mutações em seres vivos.
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O experimento e os danos genéticos
Para testar a eficácia da planta, os pesquisadores expuseram peixes da espécie Astyanax lacustris (lambari) a águas contaminadas com antibióticos comumente encontrados em efluentes urbanos. O objetivo era medir o impacto desses fármacos no DNA dos animais e observar se a presença do aguapé mitigaria os danos.
Os resultados foram impressionantes. Nos tanques sem a planta, os peixes apresentaram uma alta taxa de micronúcleos nas células sanguíneas — um indicador clássico de danos genéticos e quebras cromossômicas. Já nos ambientes onde a fitorremediação foi aplicada, a redução dessas anomalias chegou a patamares próximos de 80%. Além disso, a planta foi capaz de remover uma parcela significativa da concentração de antibióticos da água em poucos dias.
Fitorremediação: o futuro do tratamento de água
O processo utilizado, chamado de fitorremediação, utiliza o metabolismo das plantas para extrair, imobilizar ou degradar contaminantes orgânicos e inorgânicos no solo ou na água. No caso do aguapé, suas raízes densas funcionam como um filtro biológico complexo, onde microrganismos associados ajudam na quebra das moléculas dos medicamentos.
Esta técnica é especialmente relevante para países em desenvolvimento, como o Brasil, devido ao seu baixo custo operacional. Enquanto estações de tratamento de água convencionais exigem altos investimentos em tecnologia química para remover traços de medicamentos, o uso estratégico de macrófitas em lagoas de polimento pode ser uma etapa final eficaz e sustentável.
Implicações para a saúde humana
A importância desta descoberta vai além da proteção da fauna aquática. A presença de antibióticos no ambiente favorece o surgimento de “superbactérias” resistentes, um dos maiores riscos à medicina moderna. Ao remover esses resíduos na fonte, antes que entrem na rede de abastecimento ou na cadeia alimentar (através do consumo de peixes), a fitorremediação protege diretamente a população humana.
Os pesquisadores ressaltam que, embora o aguapé seja eficaz, seu uso deve ser controlado, pois a planta tem um crescimento acelerado e pode se tornar invasiva se não for manejada corretamente. O próximo passo da pesquisa é escalar esse modelo para condições reais de rios urbanos e verificar a durabilidade da capacidade filtrante da planta sob estresse constante.