Enquanto o mundo discute as emissões de carbono que saem dos canos de escape e das chaminés industriais, um gigante silencioso está sendo “esvaziado” sob os pés dos brasileiros. Um estudo abrangente, divulgado pela Agência Fapesp, revela que o Brasil perdeu impressionantes 1,4 bilhão de toneladas de carbono orgânico do solo (COS) nas últimas três décadas e meia. O motivo? A conversão desenfreada de áreas de vegetação nativa em pastagens e plantios agrícolas.
Resumo
Estudo apoiado pela Fapesp revela que a conversão de biomas originais para uso agropecuário liberou 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo entre 1985 e 2021;
A perda de carbono orgânico no solo (COS) não apenas contribui para o efeito estufa, mas também reduz a fertilidade da terra e a capacidade de retenção de água;
O Cerrado e a Amazônia são as regiões mais afetadas pelo processo de “descarbonização” da terra;
Especialistas defendem a transição para práticas de agricultura regenerativa para estancar as perdas e tentar recuperar o estoque de carbono.
Essa perda não é apenas um dado estatístico; é uma ferida aberta no equilíbrio climático do planeta. Quando uma floresta ou um campo nativo é substituído pela agricultura convencional, o carbono que estava estocado nas raízes e na matéria orgânica do solo é liberado para a atmosfera na forma de dióxido de carbono ($CO_2$), um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.
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O solo como “esponja de carbono”
O solo é o maior reservatório de carbono terrestre. Ele funciona como uma esponja que retém o elemento, ajudando a regular a temperatura global. No entanto, o estudo mostra que, entre 1985 e 2021, a “limpeza” de biomas para o agronegócio transformou o solo brasileiro de um aliado em uma fonte de emissões.
As maiores perdas foram registradas no Cerrado e na Amazônia, onde a expansão da fronteira agrícola é mais agressiva. No Cerrado, a substituição de vegetação profunda por culturas de ciclo curto, como a soja, reduziu drasticamente a capacidade da terra de estocar carbono em camadas mais profundas.
Consequências para o próprio agricultor
A ironia desse processo é que a perda de carbono prejudica diretamente a produtividade agrícola a longo prazo. O carbono orgânico é o “combustível” da fertilidade:
Menos retenção de água: solos pobres em carbono secam mais rápido, tornando as safras mais vulneráveis a secas.
Menos nutrientes: a matéria orgânica é essencial para a nutrição das plantas; sem ela, o gasto com fertilizantes químicos aumenta.
Erosão: o solo desestruturado torna-se mais suscetível a ser levado pela chuva, causando assoreamento de rios.
O caminho da recuperação: agricultura de baixo carbono
Para os pesquisadores, a solução passa obrigatoriamente pela mudança no manejo. Práticas como o Plantio Direto, a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e o uso de culturas de cobertura podem não apenas estancar a perda, mas transformar o solo novamente em um capturador de carbono.
O Brasil tem o desafio de manter seu papel de potência alimentar sem comprometer as metas do Acordo de Paris. Recuperar o carbono do solo é, portanto, uma estratégia de sobrevivência econômica e ambiental.
Perda de carbono por bioma (estimativa)
| Bioma | Impacto da conversão | Consequência principal |
| Amazônia | Desmatamento para pastagem | Liberação massiva de CO2 e perda de umidade local. |
| Cerrado | Monocultura de grãos | Redução drástica de matéria orgânica em profundidade. |
| Mata Atlântica | Urbanização e agricultura antiga | Solo exaurido com baixa capacidade de regeneração. |
| Pantanal | Queimadas e pastagem | Alteração no ciclo hídrico e estocagem de carbono. |
Com informações da Agência Fapesp