Áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas da Amazônia

Pesquisa apoiada pela Fapesp aponta que solos de veredas e campos úmidos do bioma central possuem densidade de carbono superior à biomassa amazônica, alertando para urgência de proteção

Fronteira entre a Amazônia e o Cerrado em Nova Xavantina (MT) 28/07/2021 REUTERS/Amanda Perobelli
Fronteira entre a Amazônia e o Cerrado em Nova Xavantina Foto: Reuters

Uma nova fronteira do conhecimento sobre o equilíbrio climático acaba de ser estabelecida pela ciência brasileira. Um estudo robusto, conduzido por pesquisadores e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), revelou dados surpreendentes: as áreas úmidas do Cerrado brasileiro, como as veredas e os campos úmidos, possuem uma capacidade de armazenamento de carbono superior à biomassa das florestas na Amazônia. A descoberta altera drasticamente a percepção sobre a importância estratégica do bioma central para as metas globais de descarbonização.

Resumo

  • Novo estudo científico indica que as áreas úmidas do Cerrado funcionam como gigantescos reservatórios de carbono.

  • A capacidade de armazenamento de carbono no solo dessas regiões supera a das árvores da Floresta Amazônica.

  • A destruição dessas áreas para o agronegócio pode liberar bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

  • Pesquisadores da Fapesp defendem a revisão de políticas de conservação para incluir o “carbono invisível” do subsolo.

Historicamente, a Floresta Amazônica foi o foco principal das discussões ambientais devido à sua vasta biomassa aérea — a massa de suas árvores imponentes. No entanto, a pesquisa atual demonstra que o “carbono invisível”, aquele armazenado abaixo da linha do solo nas áreas úmidas do Cerrado, é um reservatório ainda mais denso e resiliente. O estudo aponta que, enquanto a Amazônia guarda o carbono principalmente em suas folhas e troncos, o Cerrado o deposita profundamente em solos saturados de água, onde a decomposição da matéria orgânica é extremamente lenta.

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O segredo das veredas

O fenômeno ocorre devido às condições anaeróbicas (ausência de oxigênio) dos solos das veredas. Quando a vegetação local morre, ela é depositada em áreas alagadas, o que impede a rápida decomposição e permite o acúmulo de camadas orgânicas ao longo de milênios. Esse acúmulo gera uma densidade de carbono por hectare que desafia as estatísticas de biomas florestais.

Segundo os dados divulgados pela Agência Fapesp, a perda dessas áreas úmidas para a drenagem agrícola ou para o avanço da fronteira pecuária representa um risco climático imenso. Quando essas terras são drenadas, o carbono que estava estocado sob a água entra em contato com o oxigênio e é liberado na forma de dióxido de carbono (CO2), acelerando o efeito estufa. “Estamos diante de um estoque de carbono que levou milênios para ser formado e que pode ser perdido em poucas semanas de manejo inadequado”, alertam os cientistas.

“As áreas úmidas do Cerrado são os verdadeiros ‘cofres’ de carbono do Brasil; protegê-las é tão fundamental quanto evitar o desmatamento da Amazônia.”

Pesquisadores do estudo apoiado pela Fapesp

Mudança de paradigma na conservação

A análise publicada pela Agência Brasil destaca que o Cerrado é frequentemente negligenciado em termos de proteção legal quando comparado à Amazônia. Atualmente, o Código Florestal exige a preservação de 80% da área em propriedades na Amazônia Legal, enquanto no Cerrado esse índice cai para 20% (ou 35% se estiver dentro da Amazônia Legal). Os novos dados sugerem que essa disparidade ignora a relevância climática do bioma central.

A pesquisa reforça que o sequestro de carbono não deve ser medido apenas pelo que é visível acima do solo. A complexidade das raízes e o solo hidromórfico do Cerrado funcionam como uma tecnologia natural de captura e armazenamento de carbono de alta eficiência. Além disso, essas áreas úmidas são as “caixas d’água” do País, alimentando bacias hidrográficas vitais para o consumo humano e a geração de energia.

Consequências geopolíticas

A cerrado-carbono-areas-umidas-amazonia-estudo-fapespdescoberta coloca o Brasil em uma posição de liderança e responsabilidade renovadas no mercado de créditos de carbono. Se o Cerrado for gerido com foco na conservação dessas áreas úmidas, o País poderá oferecer soluções climáticas baseadas na natureza com resultados mensuráveis superiores a muitos projetos internacionais de reflorestamento.

O avanço da fronteira agrícola sobre o Cerrado precisa, portanto, ser acompanhado de um zoneamento rigoroso que identifique e blinde esses reservatórios de carbono. Ignorar o valor das veredas e dos campos úmidos é comprometer não apenas a biodiversidade e o regime de chuvas do Brasil, mas a estabilidade térmica do planeta.

Com informações da Agência Brasil e da Agência Fapesp