A crise climática é hoje a maior emergência que a humanidade já enfrentou. A frase é de uma referência internacional no assunto, o climatologista brasileiro Carlos Nobre. Catedrático do Instituto de Estudos Avançados, da USP, ele é engenheiro eletrônico formado pelo ITA, mas sua trajetória se tornou conhecida pelo estudo da Amazônia, a qual dedica mais de 40 anos de pesquisas.
Nobre integrou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, grupo de cientistas da ONU, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Recentemente, foi nomeado pelo papa Leão 14 para o conselho do Vaticano que promove discussões sobre o desenvolvimento humano.
Aos 75 anos, o professor faz um alerta: a Amazônia está próxima do ponto de não retorno, quando um bioma não consegue mais se regenerar por conta própria, por mais que se interrompa a degradação — ou seja, a floresta perde sua resiliência natural.
Nesta entrevista, Nobre critica presidentes negacionistas, explica o impacto do desmamento sobre o agronegócio, e chama atenção para as eleições no Brasil e para a importância da escolha de políticos que não neguem a emergência climática.
O cientista reforça que a destruição da Amazônia e o aquecimento global – com o aumento das emissões dos gases de feito estufa, inclusive pela Guerra do Irã – podem levar a um cenário de ecocídio, com partes do planeta se tornando inabitáveis ao longo do século.
Como um engenheiro eletrônico se tornou um dos cientistas mais conhecidos do mundo quando se trata de mudança climática?
Foi uma coisa muito interessante na minha vida. Quando eu era muito jovem, nos anos 1960, fazendo o que hoje chamamos de ensino médio, era cultural: se você fosse bom aluno de física e matemática – e eu era –, todo mundo dizia para fazer engenharia. Era comum. Passei no ITA e na Escola Politécnica da USP. Escolhi o ITA. Como aluno do ITA, em 1971 e 1972, tive muita sorte. Houve uma oportunidade para mim e vários colegas de conhecermos a Amazônia. Em 1971, fomos para o Pará e Amapá; em 1972 para Mato Grosso, Rondônia e Acre, onde conhecemos de barco uma comunidade indígena. Aquilo mudou minha cabeça. Naquela época, a Amazônia estava perfeita, o desmatamento era quase zero e nós andamos na floresta. Eu falei: “Nossa, quero dedicar minha carreira para a Amazônia”. Eu me formei em 1974 e, no final de 1975, consegui um emprego no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) como engenheiro eletrônico. Lá, o então diretor do Inpa, o grande cientista da USP Warwick Kerr (um importante especialista em abelhas), me disse em 1976: “Carlos, você tem de virar cientista”. Foi aí que decidi. Eu Me inscrevi para universidades nos Estados Unidos, fui aceito no MIT e fui. Deixei de ser engenheiro eletrônico, fiz meu doutorado em meteorologia e nunca mais deixei de trabalhar nessa área. Cheguei de volta ao Brasil em janeiro de 1983 e comecei a trabalhar sobre a Amazônia. Essa foi a razão principal: a oportunidade histórica de conhecer a Amazônia muito antes dela ser tão desmatada.
O que faz um climatologista?
Nas últimas décadas, nós começamos a mudar o clima. Nos últimos três anos (2023, 2024 e 2025), o aquecimento global que estamos causando (com os gases de efeito estufa) chegou a 1,5°C mais quente do que o período entre 1850 e 1900. É uma preocupação que vem há tempos. Em 1979, no MIT, meu orientador liderou um grupo de cientistas para estudar o risco quando o mundo estava apenas 0,4°C mais quente. Hoje, vivemos uma emergência climática gravíssima. A climatologia se tornou importante porque formou um grande número de cientistas e profissionais que estudam o que vai acontecer com o clima, como combater a emergência climática e como nos adaptarmos aos eventos extremos.
O senhor conheceu a Amazônia num tempo em que o desmatamento era irrisório. A partir de que cenário começou a elaborar a teoria da savanização, o que ela significa e qual o cenário atual?
Quando consegui meu emprego, no final de 1975, foi exatamente quando o desmatamento começou a acelerar. De 1975 a 1988, já tinham desmatado 300.000 km² da Amazônia brasileira – uma área maior que o estado de São Paulo. Em 1988 e 1989, fiz uma parceria com colegas da Universidade de Maryland (EUA). O estudo questionava: se desmatarmos muito a Amazônia, substituirmos por pastagens e depois pararmos, a floresta volta ou não? Ele mostrou que o clima no sul da Amazônia mudaria tanto que ficaria como o do cerrado, com uma estação seca de seis meses, mas em estado degradado. Quando publicamos esses artigos, demos o nome de “savanização”. A vegetação no sul da Amazônia ficaria parecida com uma savana tropical degradada. Se a Amazônia passar do ponto de não retorno, é uma autodegradação. Não é algo que você pode parar. Muitos estudos mostraram que, após passar desse ponto, em 30 a 50 anos perderíamos até 70% da floresta amazônica.
Quão perto a gente está desse ponto de não retorno? Segundo o governo, houve redução de desmatamento de 11% entre agosto de 2024 e julho de 2025. Diante disso, qual o cenário?
De fato, nos encontramos muito próximos do ponto de não retorno. Depois daquele primeiro estudo, há 36 anos, continuei nessa linha. Também liderei a criação de um experimento, o Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia, ou LBA [programa do Inpa que investiga a interação entre a floresta e a atmosfera], que começou em janeiro de 1999 e existe até hoje. Tudo isso foi mostrando que a Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno. Nossos estudos indicaram que, se o desmatamento chegar a 20% ou 25% da floresta e o aquecimento global atingir 2°C [acima dos níveis pré-industriais], passaremos desse ponto. O desmatamento está em 18%. O aquecimento global está chegando rapidamente a 1,5°C e, se não reduzirmos as emissões, chegaremos a 2°C até 2040. Portanto, a Amazônia poderá atingir o ponto de não retorno até 2040, ou não mais que 2050, se continuarmos com o desmatamento e aquecimento global. Felizmente, tivemos a boa notícia de uma grande queda no desmatamento de toda a Amazônia a partir de 2023. O Brasil está lutando para ter o menor desmatamento desde que a ditadura militar começou a desmatar nos anos 1970. Em 2025, foi um pouco mais de 5.000 km², e tudo leva a crer que cairá abaixo de 4.000. Comparando 2025 com 2022, a queda chegou a pouco mais de 50%. Nesse lado, estamos indo para o caminho certo. Os países amazônicos querem zerar o desmatamento até 2030, o que evitaria passar dos 20%. Mas o aquecimento global é um enorme desafio, pois 75% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis no mundo. Em 2025, tivemos o recorde de emissões. Nestes primeiros meses do ano, com a guerra do Irã, as emissões também aumentam. Então, estamos correndo um enorme risco porque também precisamos combater o aquecimento global.
Sobre a meta de desmatamento zero, o que nos impede de chegar a esse objetivo? Quais são os principais vilões?
Há vilões muito perigosos. Um deles é o crime organizado na Amazônia, responsável por uma mega destruição. Eles fizeram grilagem de áreas públicas, desmataram, criaram fazenda de pecuária e venderam no mercado ilegal de terras. Depois, o setor do agronegócio pressionou o Congresso [pela legalização]. Muitas áreas foram aprovadas. O que aconteceu entre 2023 e parte de 2025? Quando os países conseguiram reduzir o desmatamento, o crime organizado começou a desmatar usando fogo. Em 2024, bateu-se o recorde de incêndios na floresta. Outro desafio: ainda não está claro que o agronegócio tenha concordado em zerar rapidamente o desmatamento e fazer uma grande restauração florestal das áreas degradadas. O Congresso aprovou no ano passado o Projeto de Lei 2159 que permite um enorme aumento de desmatamento, de mineração e infraestrutura, como estradas na floresta, que estão associadas a grandes áreas desmatadas. Precisamos combater isso. Politicamente, o setor do agronegócio não apoia totalmente zerar o desmatamento. É algo difícil de entender por quê. A produção agrícola no Brasil vai cair muito se a gente passar do ponto de não retorno da Amazônia. A floresta é muito eficaz em reciclar água. Uma grande quantidade de vapor d’água é “exportada”. Até 50% da chuva do cerrado dependem desse vapor d’água. Um estudo mostrou que 15% da chuva da mata atlântica do Sudeste dependem desses “rios voadores”, como chamamos. E de 30% a 50% da chuva na mata atlântica no Sul e em países vizinhos também dependem [dos “rios voadores”]. Então, passar do ponto de não retorno da Amazônia vai prejudicar demais o agronegócio brasileiro.
Apesar de todos os avanços científicos e de o conhecimento sobre os rios voadores ter sido divulgado até pelo fotógrafo Sebastião Salgado em exposições mundiais, por que o agronegócio é tão resistente e não entende que o desmatamento é prejudicial para o futuro dos negócios?
Quando olhamos os setores econômicos do mundo, o único que é mais negacionista sobre o risco da emergência climática é o agronegócio, não só no Brasil, mas no mundo todo. Nos Estados Unidos, o agronegócio apoiou esse presidente Trump, que é negacionista. Aqui no Brasil, o agronegócio sempre apoia políticos negacionistas.
É muito perigoso. É muito importante que todos os cursos, as universidades que têm agricultura no Brasil ensinem e preparem os estudantes de que é totalmente factível salvar a Amazônia e salvar os biomas brasileiros. Isso vai proteger a agricultura brasileira.
O que acontece com o Brasil e o mundo se a degradação da Amazônia continuar?
A Amazônia armazena uma gigantesca quantidade de carbono. Isso jogará na atmosfera mais de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico, tornando impossível manter o aquecimento global até 1,5°C. Vamos perder a maior biodiversidade do planeta. Para a saúde humana, o risco é imenso. A Fiocruz e o Instituto Evandro Chagas, de Belém, mostraram que há 48 zoonoses (vírus) na Amazônia que podem se tornar epidemias ou pandemias. Dessas, as febres Mayaro e Oropouche se tornaram epidemias a partir de 2024. Além disso, a reciclagem de água e os “rios voadores” vão cair muito. Isso indica que o cerrado também passará por um ponto de não retorno e o pantanal pode desaparecer até 2070 ou 2100.
Para ilustrar, existem cenários no mundo ou ecossistemas que já passaram do ponto de não retorno? Corais, por exemplo?
A ciência mostra vários riscos de pontos de não retorno. O que está mais próximo são os recifes de corais. Nos últimos anos, a temperatura dos oceanos tropicais, onde estão mais localizados esses corais, já chegou perto de 1,5°C de aquecimento. Isso está fazendo quase 30% dos recifes de corais, inclusive na costa do Nordeste brasileiro, começarem a morrer – vão ficando branqueados. Se a temperatura passar de 1,5°C, começaremos a extinguir os recifes. Se chegar a 2°C até 2100, todos os recifes de corais serão extintos. Eles mantêm 25% da biodiversidade oceânica, muitas plantas e fauna. Outros animais dependem muito dos corais para sobreviver, como peixes. Esse é o ponto de não retorno de que nós estamos. Se isso acontecer, nós, humanos, nunca fizemos isso: a extinção de espécies. Será a primeira vez que uma espécie – a humana – vamos gerar a extinção de outra espécie no planeta.
O que aponta como as principais conquistas da COP30 e o que espera ver na próxima conferência?
Nós esperávamos que ela fosse uma COP super importante, como foi o Acordo de Paris, em 2015, e a COP26, em Glasgow, na Escócia, em 2021. Seria uma COP em que todos os países concordariam em assinar os documentos de que vamos acelerar a redução das emissões de gases do efeito estufa. No começo da COP30, foram lançados dois “mapas do caminho”. Um deles era zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis. O segundo era zerar os desmatamentos até 2030 em todo o planeta e passar a ter grande regeneração dos biomas. Mas vários países não concordaram com os mapas e, como a COP exige consenso, isso não foi aprovado. O que foi bem aprovado foi começar a batalhar muito para aumentar a adaptação de bilhões de pessoas no mundo. A COP aprovou cenários e grupos para monitorar isso, com um fundo de US$ 300 bilhões por ano para a adaptação – embora as doações ainda não tenham ocorrido. Outro aspecto positivo foi o Fundo de Floresta Tropical Para Sempre (TFFF), uma iniciativa do Brasil. Temos de torcer muito para esse fundo ir para frente. Se ele chegar a US$ 125 bilhões em financiamento até 2035, toda floresta tropical do planeta receberá US$ 4 por hectare/ano para sua manutenção. O fundo vai gerar US$ 4,5 bilhões por ano para os países que mantêm as florestas, com 20% destinados aos povos indígenas.
O que pode ser feito para a próxima COP?
A presidência da COP 30 colocou um desafio para cientistas, e eu faço parte desse grupo: a criação de um painel científico para a transição energética global na direção de zerar o uso de combustíveis fósseis [ele foi lançado em reunião na cidade de Santa Marta, na Colômbia, no dia 25 de abril]. Na criação desse painel teremos, no mínimo, 30 cientistas experientes em transição energética para zerar o uso de combustíveis fósseis. Teremos também nesse grupo pessoas muito experientes do ponto de vista político para acelerar a transição energética. Essa é uma iniciativa da presidência da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, e da secretária executiva Ana Toni para levar tudo isso para a COP31. A ideia é levar tudo o que a ciência diz sobre a viabilidade de fazer rapidamente a transição energética e apresentar o primeiro informe na COP 31, na Turquia [em Antalya, de 9 a 20 de novembro deste ano]. Essas são iniciativas da presidência da COP30 e tevemos torcer para que isso tenha impacto importante na COP31 de fazer todos os países em concordarem rapidamente em zerar uso de combustíveis fósseis e mais rapidamente zerar todos os desmatamentos e fazer grande escala de regeneração de todos os biomas.
A situação no Oriente Médio e o bloqueio de combustíveis podem contribuir para essa visão de urgência da transição energética? Afinal, o mundo está paralisado por conta desse bloqueio do transporte de combustível pelo Estreito de Ormuz.
Sem dúvida. A transição energética é urgente em todos os sentidos. Não há como aceitarmos qualquer guerra. O setor militar do mundo hoje representa o quarto maior emissor de gases de efeito estufa [atrás de China, Índia, Estados Unidos]. Quando há guerras, como essas que estão acontecendo, também aumentam muito as emissões. Temos de rapidamente zerar todas as guerras. Também é muito importante outro dado. O fator que mais leva à poluição do ar é a queima de combustíveis fósseis, principalmente nas cidades. Ela vem da queima de petróleo, carvão, diesel. Quando a gente zerar o uso de combustíveis fósseis, vamos melhorar demais a qualidade do ar. Isso [a poluição] leva à perda de expectativa de vida de 2 a 4 anos em cidades muito poluídas. E também [gera de] 6 a 7 milhões de mortes por ano. Então, também outro benefício de zerar o uso de combustíveis fósseis vai ser para a saúde.
Em algum momento, o combustível fóssil vai gerar a mesma percepção negativa que temos do cigarro hoje?
É um bom ponto. Como falei, a poluição urbana leva 6 a 7 milhões de mortes por ano. O uso do cigarro, 12 milhões de mortes. Esse número vem diminuindo porque o consumo de cigarro no mundo vem diminuindo. No Brasil, em 35 anos, esse número já caiu. Antes, 24% dos adultos eram fumantes de cigarro e hoje esse número está na faixa de 11% a 12%. Isso está acontecendo no mundo inteiro. O Brasil é um dos países com menor número de adultos fumantes. Então, esse ponto é muito bom. Temos de realmente ver esse enorme risco. Não é só poluição do ar. O aquecimento global está trazendo também os eventos extremos máximos. O que mais leva à morte são as ondas de calor. A dos últimos anos já levaram a mais de 500 mil mortes por ano, principalmente idosas e idosos. Aqui, no Brasil, são mais de 10 mil mortes por ano. Então, é muito prejudicial para a saúde humano e para a saúde do planeta. Deveríamos, sim, zerar o uso de combustíveis fósseis de forma semelhante a zerar o consumo de cigarro.
A respeito de comunicação: muito se discute na academia e nos governos, mas como sensibilizar a população para a urgência climática, já que é a sociedade que pressiona por mudanças?
Nós, cientistas da área, alertávamos há décadas sobre não deixar chegar a 1,5°C para evitar eventos extremos: ondas de calor, chuvas excessivas, secas, incêndios florestais, vendavais. Tudo ia aumentar demais. Mas ninguém prestava muita atenção. O que aconteceu agora, nos últimos três anos, é que a temperatura chegou a 1,5°C. Todos os eventos extremos bateram recordes. Pela primeira vez, percebemos que as populações estão realmente preocupadas. O evento de chuva extrema no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, que matou 184 pessoas, afetando centenas de milhares de gaúchos, mudou a percepção em todo o Brasil. Hoje, cerca de 90% da população aceita que essas chuvas excessivas têm a ver diretamente com o aquecimento global. O número de negacionistas na população brasileira diminuiu muito. Agora, o cuidado é não eleger políticos negacionistas.
Neste ano eleitoral, em que a pessoa deve prestar atenção na hora de escolher seu candidato para evitar a “maquiagem verde”?
Por mais que a gente esteja vivendo a maior emergência climática da história das civilizações, na última década, nas democracias do mundo inteiro, aumentou muito a eleição de políticos negacionistas. Por exemplo, nos Estados Unidos e na Argentina. O presidente dos Estados Unidos disse com o maior orgulho no Fórum Econômico Mundial em Davos que a emissão cresceu muito. Ele falou que os Estados Unidos aumentaram 830 mil barris de petróleo por dia a mais e retomaram minas de carvão, que estavam paradas há décadas. Quero deixar essa mensagem clara: independente da preferência ideológica do eleitor, da eleitora (centro, esquerda, direita), não votem em políticos negacionistas como o presidente dos Estados Unidos e o presidente da Argentina. Não votem de jeito nenhum. Elegendo esses políticos nós vamos levar o planeta para o que chamamos de “ecocídio”. Até 2100 grande parte do planeta estará inabitável.
Por que a biodiversidade não ganha uma escala econômica maior? Por que há resistência em explorá-la sustentavelmente?
Essa é uma deficiência cultural grave que, infelizmente, nos afeta. Quando os europeus chegaram às Américas há 500 anos, eles ignoraram completamente o conhecimento dos povos indígenas. Trouxeram produtos agrícolas desenvolvidos na Europa por séculos e desmataram o que puderam. Hoje, a maioria dos produtos que nós consumimos no mundo é dessa origem. Temos de mudar culturalmente. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, 18% a 20% das espécies de fauna e flora. Ter um sistema alimentar baseado em muitos produtos da biodiversidade vai melhorar demais a nossa saúde. Um estudo recente mostrou que, das cerca de 250 frutas usadas pelos indígenas na Amazônia, 26 delas fazem um enorme bem para a saúde. Essa é uma mudança cultural sobre a qual temos enorme responsabilidade, que é valorizar o conhecimento dos povos indígenas e das comunidades locais, que quase foram levados à extinção.
Qual seu papel no conselho do papa [o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral]? Dentre os reconhecimentos que recebeu, qual mais te impactou?
Tenho trabalhado com a ciência ambiental, climática e amazônica há 43 anos. Fico honrado com o reconhecimento da Royal Society, do Reino Unido. Também fui convidado para ser um Guardião Planetário [iniciativa criada pelo bilionário britânico Richard Branson]. Sem dúvida, fiquei muito honrado com o papa Leão 14 ter me convidado [para o conselho]. O papa Francisco me convidou em 2019 para o Sínodo para a Amazônia, no Vaticano. Ele demonstrou enorme valorização dos povos indígenas. Leão 14 também quer levar esses aspectos para a proteção do planeta. A gente viu nesses dias a enorme discussão entre o papa e o negacionista presidente dos Estados Unidos sobre guerras. Tenho a expectativa de que o conselho de desenvolvimento humano integral vai continuar na linha do papa Francisco de proteção de toda humanidade e ambiental. Estou feliz de poder contribuir com ideias e soluções.