A trajetória de Kamila Camilo no campo socioambiental começou em 2017, quando ela aceitou participar do projeto Barco Hacker. A iniciativa navegava de comunidade ribeirinha em comunidade ribeirinha na Amazônia, levando tecnologias emergentes, como impressoras 3D e conceitos de design, para populações que raramente têm acesso a essas ferramentas. Foi durante essa primeira viagem que ela se deparou com o município de Barcarena, na região metropolitana de Belém, conforme relatou em entrevista ao IstoÉ Sustentável.
“Foi quando eu entendi que o meu comportamento de consumo influenciava diretamente o desejo de consumo das pessoas que vivem ali”, revela. Ver resíduos de embalagens de marcas que ela mesma consumia em São Paulo espalhados pelas comunidades ribeirinhas, sem acesso à coleta seletiva, trouxe uma compreensão profunda sobre a interconexão entre o consumo urbano e os impactos ambientais em regiões distantes.
Em 2019, Kamila realizou seu primeiro trabalho voluntário em uma aldeia indígena com a Fundação Amazônia Sustentável, onde montou orquidário, ajudou na horta e deu aulas de português. A pandemia trouxe novos rumos para sua carreira. Trabalhando no FabLab Livre SP, uma política pública da prefeitura de São Paulo voltada para laboratórios de fabricação digital, ela viu sua função ser considerada não essencial durante o período de isolamento social. Foi quando começou a prestar serviços como freelancer para uma amiga que estava montando uma consultoria de ESG. “Cada projeto que ela fechava era um MBA novo que eu tinha que fazer”, brinca sobre o período de aprendizado acelerado na área.
A COP 26 e a barreira da linguagem técnica
Em 2021, já trabalhando há alguns meses com a consultoria, surgiu a oportunidade de acompanhar um cliente durante a COP26, em Glasgow, na Escócia. Morando em uma casa com mais de dez adolescentes ativistas durante o evento, ela teve “aulas no trem” sobre o sistema ONU. Mas foi ao questionar o significado da sigla NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) que recebeu uma resposta que a marcou profundamente: “Como você não sabe? Por que você está aqui?”.
“O inglês é minha segunda língua e em 2021 eu só tinha estudado inglês por seis meses”, contextualiza. A quantidade de acrônimos e a linguagem técnica excludente criavam um círculo fechado de conhecimento que afastava justamente as pessoas que mais precisavam participar das conversas climáticas. “Custa a pessoa falar a sigla e em seguida dar a explicação?”, questiona. Ao constatar que “a galera que parece com a gente não está entendendo essa conversa”, ela decidiu criar uma forma de levar comunicadores para conhecer de perto os territórios e as questões ambientais.
O programa que transforma criadores em multiplicadores ambientais
Nascia assim o Creators Academy Program, hoje chamado de Cria Raiz, um programa voltado especificamente para criadores de conteúdo. A escolha desse público não foi aleatória: mais de 60% dos brasileiros consomem produtos e serviços baseados na visão de criadores de conteúdo. “A gente tem criadores no Brasil com taxas de conversão altíssimas, que nem campanha de publicidade entrega mais”, aponta Kamila. A tese era criar um caminho para conversar com os 14 milhões de criadores do país.
A metodologia desenvolvida se baseia em estudos de psicologia positiva e aprendizado por experiência. Grupos de 70 pessoas são levados para a Amazônia ou para o sertão, sendo retirados de suas zonas de conforto para vivenciar experiências que os reconectem com a natureza e com as comunidades que nela vivem. “A gente vai ajudar essa pessoa a lembrar o que é ver um céu estrelado, nadar no igarapé, pescar o próprio peixe e assá-lo”, descreve. O objetivo é criar memórias afetivas positivas que transformem a relação dos participantes com aqueles territórios. “Eu não vou conseguir proteger algo que eu não conheço e com o qual eu não me relaciono emocionalmente.”
Os impactos do programa vão além do esperado. Vários participantes mudaram completamente suas trajetórias profissionais após as experiências. Alguns se tornaram criadores de conteúdo focados exclusivamente em meio ambiente, outros largaram seus empregos para iniciar novas iniciativas no campo ambiental. Uma das criadoras montou uma agência cujo elenco é formado quase inteiramente por pessoas que participaram da mesma imersão.
“Povos indígenas não têm mais o nome ‘povos indígenas’ para essas pessoas. É o cacique Joel, é a liderança Carol Puanala”, exemplifica Kamila sobre como a personalização das questões ambientais gera maior engajamento. As lutas pela demarcação de terras indígenas ganham rostos, nomes e contatos telefônicos através dos quais é possível manter uma comunicação.
Quando os criadores estabelecem uma reputação sólida em sustentabilidade, passam a ser assediados por marcas que buscam aproveitar essa visibilidade. “Um mentor me falou que eu seria mais definida pelos nãos que eu falo do que pelos sins”, reflete Kamila, que aconselha os criadores a resistirem às tentações financeiras que possam comprometer suas reputações.
Com uma trajetória não linear e repleta de experimentações, Kamila encontrou uma forma de amplificar o engajamento climático. Ao transformar criadores de conteúdo em multiplicadores de narrativas ambientais, ela está construindo uma ponte entre o conhecimento técnico das conferências internacionais e o cotidiano de milhões de brasileiros que acompanham seus influenciadores favoritos nas redes sociais – uma estratégia que reconhece o poder da experiência pessoal como motor de transformação coletiva.