COP15: sabedoria ancestral é peça-chave para salvar espécies migratórias

Representantes de diversas etnias e comunidades tradicionais entregaram um manifesto às Nações Unidas defendendo que não há preservação da biodiversidade sem o respeito aos territórios e aos conhecimentos milenares

Líderes da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias (COP15)
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias (COP15) foi palco de um apelo urgente nesta semana: o reconhecimento formal dos saberes ancestrais como ciência fundamental para a preservação do planeta. Líderes indígenas, quilombolas e ribeirinhos de diversas partes do mundo aproveitaram a visibilidade do encontro em Campo Grande para denunciar a exclusão de suas comunidades dos processos de decisão ambiental.

Resumo

  • Reconhecimento científico: a validação dos saberes ancestrais como ferramentas legítimas e complementares à ciência acadêmica na conservação.

  • Gestão compartilhada: a inclusão direta de líderes tradicionais nos conselhos que definem políticas de proteção de biomas.

  • Recursos diretos: a criação de mecanismos financeiros que garantam que os fundos de preservação beneficiem as comunidades que realizam a guarda dos territórios.

  • Demarcação de terras: a reafirmação de que a segurança jurídica da posse da terra é indispensável para evitar o avanço do desmatamento e a interrupção de rotas migratórias.

O grupo defende que o monitoramento de espécies migratórias e a proteção de corredores ecológicos já são realizados por essas populações há milênios, através de uma conexão íntima com os ciclos da natureza. Para os representantes, os modelos de conservação “de cima para baixo” muitas vezes ignoram a realidade local e falham por não incluir quem vive e protege o território diretamente.

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Direitos territoriais e financiamento

Além do reconhecimento cultural, o movimento exige que parte dos recursos globais destinados à biodiversidade chegue diretamente às comunidades. O manifesto entregue à organização da conferência destaca que a segurança territorial é a maior garantia de preservação das rotas migratórias. “Não se protege o animal se não protegermos o guardião da terra onde ele descansa e se reproduz”, afirmou uma das lideranças durante o painel de debates.

A pressão dos povos tradicionais ocorre em um momento estratégico, enquanto o governo brasileiro busca consolidar sua liderança climática. A demanda por um “multilateralismo inclusivo”, citado pelo presidente Lula na abertura do evento, ganha agora um rosto e uma voz: a daqueles que detêm o conhecimento prático sobre como conviver com a fauna silvestre sem destruir o equilíbrio do ecossistema.