Da promessa à entrega: os sinais da COP30 para o setor privado

Eventos extremos afetam balanços corporativos e setor privado precisa se adaptar para incorporar o clima como componente de risco

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Entrada de um dos galpões da COP30 Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Pacote de Belém, aprovado por 195 países na COP30, inaugura uma nova etapa para o regime climático: a da implementação. É nesse contexto que as empresas passam a ocupar um papel central. Mesmo sem integrar o ambiente de decisões formais da ONU, a execução das metas climáticas depende, cada vez mais, de investimentos, inovação e gestão de risco dentro do setor privado.

“Os resultados da COP30 colocam o foco na agenda de implementação, na qual o setor privado tem grande capacidade de gerar transformação”, afirma Ricardo Assumpção, sócio-líder de Sustentabilidade e Chief Sustainability Officer da EY América Latina. “Eles apontam para um modelo que exige a atuação da liderança das empresas em conjunto com a governança pública.”

As negociações formais dentro da Blue Zone não trouxeram novidades estruturais, conforme era esperado, ainda que o Pacote de Belém tenha consolidado decisões sobre adaptação, financiamento e transição justa. Todavia, houve um sentimento generalizado de frustração quando o texto final da conferência não incluiu a menção à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Como alternativa, o Brasil se comprometeu a desenvolver duas iniciativas paralelas ao longo de 2026: um roteiro para a transição energética e outro para zerar o desmatamento. Essas discussões devem ocorrer fora do processo formal da ONU e servir de base para a COP31, que será realizada na Turquia.

Segundo a consultoria ERM, o setor privado sai da COP30 com a tarefa de demonstrar que sustentabilidade e retorno financeiro podem caminhar juntos. A mudança de foco — da ambição para a implementação — exige que os programas de sustentabilidade entreguem valor comercial mensurável. A transição energética, por exemplo, pode reduzir custos operacionais, proteger contra a volatilidade do mercado de energia e fortalecer a reputação das marcas.

Um dos pontos fortes da conferência foi o volume de iniciativas do setor privado que ocorreram fora dos corredores do ambiente formal da ONU. Para Assumpção, esse movimento mostra o apetite das empresas em incorporar o clima como um componente de risco, uma vez que os eventos extremos vêm afetando os balanços corporativos. Os impactos aparecem na interrupção de cadeias de suprimento, nos danos à infraestrutura e nas perdas de ativos.

Em setembro deste ano, um tornado destruiu a fábrica de motores da Toyota em Porto Feliz (SP) e paralisou a produção da montadora no país. Pouco depois, em novembro, outro tornado com ventos superiores a 300 quilômetros por hora devastou cidades. No Rio Grande do Sul, o aeroporto de Porto Alegre ficou fechado por quase seis meses após as enchentes de maio de 2024. “As discussões fora da Blue Zone mostraram que o setor privado, ao combater a mudança do clima, protege o capital”, resume.

O Roteiro Baku-Belém, elaborado pelo Brasil em parceria com o Azerbaijão e divulgado antes do início da COP30, estabelece a meta — de caráter aspiracional e dependente de múltiplos mecanismos — de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para o financiamento climático em países em desenvolvimento. Análises independentes indicam que a maior parte desse montante deverá vir do investimento privado. Essa participação ainda é uma expectativa, não um compromisso formal. Hoje, apenas 22% do financiamento climático vem de fontes privadas, e a intenção é que essa participação aumente nos próximos anos.

A UNEP FI, iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente voltada ao setor financeiro, publicou um documento com ações para reorientar os fluxos de capital, propondo que os atores públicos e privados trabalhem juntos para ampliar o financiamento de longo prazo.

O que vem pela frente

A decisão de triplicar a mobilização de recursos para adaptação até 2035 foi uma das principais deliberações do Pacote de Belém e coloca esse tema no radar das empresas. A escolha da Etiópia para presidir a COP32, em 2027, reforça essa direção: será a primeira nação do grupo de países “menos desenvolvidos do mundo” a sediar a conferência.

“A agenda de adaptação é pouco conhecida em sua amplitude. Ela envolve a resiliência dos equipamentos urbanos, as cidades sustentáveis, a gestão do uso de solo e o manejo da água”, explica Assumpção.

A transição justa também avançou nas negociações formais. Um mecanismo foi aprovado para promover a cooperação internacional e a troca de conhecimento. 43 países e a União Europeia assinaram a Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas. Na prática, os planos de descarbonização precisam considerar os impactos sobre os trabalhadores e as comunidades.

Fora do texto negociado, o Brasil lançou a sua taxonomia de finanças sustentáveis, desenvolvida com o apoio técnico da UNEP FI. A taxonomia funciona como um dicionário que estabelece critérios para identificar quais atividades econômicas atendem a padrões ambientais de sustentabilidade. Ela funciona como uma linguagem comum entre governos, bancos e empresas, e facilita a identificação de projetos elegíveis para o financiamento verde. A taxonomia brasileira busca compatibilidade com os sistemas de outros países, o que favorece o fluxo de capital internacional.

A demanda por energia segura permanece como um desafio que atravessa todas essas agendas. Os data centers consomem eletricidade mais rápido do que as redes conseguem fornecer, e a transição para fontes renováveis não acompanha esse ritmo. “A exploração de petróleo ainda é necessária para a produção de energia global, porque a demanda cresce muito. Não temos uma oferta segura de renováveis que dê conta disso”, observa Assumpção. “Até 2050, não existe uma perspectiva realista de eliminação dos combustíveis fósseis.”

Diante desse cenário, as fontes de financiamento desempenham o papel de indutores. “O capital público, ou o blended finance com o capital filantrópico, não é suficiente, mas é necessário para mitigar o risco do investimento e abrir espaço para o capital privado”, acrescenta Assumpção.

Para ele, o recado da COP30 é claro: “a agenda de sustentabilidade, quando incorporada de forma correta aos modelos de negócio, traz oportunidade. A descarbonização passa a ser uma consequência de bons projetos. Isso é fundamental porque precisamos do capital privado para promover as transformações.”