A Amazônia não é apenas o maior reservatório de biodiversidade do planeta; ela funciona como um gigantesco sistema de ar-condicionado global. No entanto, esse sistema está falhando devido à ação humana. O estudo mais recente da Unicamp, com suporte da Fapesp, demonstra de forma assertiva que o desmatamento não apenas libera carbono na atmosfera, mas altera de forma imediata e física a temperatura do solo. Durante a estação seca, quando a floresta já está sob estresse hídrico, as áreas desmatadas registram temperaturas até 3°C superiores às zonas de mata fechada.
Aquecimento localizado: a pesquisa utilizou dados de satélite para comparar áreas de floresta preservada com zonas desmatadas, identificando picos térmicos severos.
Ciclo hidrológico: a elevação da temperatura reduz a evapotranspiração, processo pelo qual a floresta “bombeia” umidade para a atmosfera, alimentando os rios voadores.
Estação seca prolongada: o estudo aponta que o desmatamento torna os meses de estiagem mais quentes e secos, dificultando a recuperação natural da vegetação.
Impacto econômico: o aumento do calor na superfície afeta diretamente a produtividade agrícola em regiões adjacentes à floresta.
A explicação reside no albedo e na capacidade de evapotranspiração. Enquanto as copas das árvores absorvem a radiação solar e liberam umidade — resfriando o ambiente —, o solo exposto ou a pastagem refletem o calor de forma agressiva, criando “bolhas de calor” regionais. “A floresta preservada atua como um tampão térmico. Sem ela, a radiação solar atinge diretamente o solo e o ar circundante de forma muito mais intensa”, explicam os especialistas envolvidos no estudo.
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O colapso da bomba d’água biológica
A elevação de 3°C na superfície é um gatilho para o colapso do ciclo hidrológico. A floresta amazônica é responsável pela formação dos “rios voadores”, massas de ar carregadas de umidade que cruzam o continente e garantem as chuvas no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Quando a temperatura da superfície sobe, a umidade do solo evapora mais rápido do que a vegetação consegue repor, diminuindo a formação de nuvens.
Para o agronegócio brasileiro, esse dado é um alerta econômico direto. A dependência do regime de chuvas para as safras de soja e milho torna o desmatamento da Amazônia um inimigo da balança comercial nacional. Em 2026, com o avanço das mudanças climáticas globais, a proteção da cobertura vegetal não é mais apenas uma pauta ambientalista, mas uma necessidade de segurança alimentar e hídrica.
Implicações para o futuro do bioma
Outro ponto crítico levantado pela pesquisa é a retroalimentação negativa. O calor excessivo na superfície durante a seca aumenta a probabilidade de incêndios florestais acidentais, que por sua vez destroem mais mata, elevando ainda mais a temperatura. Esse ciclo pode levar a Amazônia ao “ponto de não retorno”, transformando partes da floresta úmida em uma savana degradada.
A ciência brasileira, através de instituições de ponta como a Unicamp e a USP, tem sido enfática: a manutenção da floresta em pé é a estratégia de mitigação climática mais barata e eficiente disponível. A implementação de políticas públicas que combatam o desmate ilegal deve ser acompanhada de incentivos para a restauração florestal, visando “baixar a febre” da superfície amazônica antes que o impacto térmico se torne irreversível para as próximas gerações.
Com informações da Agência Fapesp