O governo francês anunciou nesta sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026, uma medida que reacende o debate global sobre a coexistência entre humanos e grandes predadores. A ministra da Agricultura, Annie Genevard, confirmou a autorização para o abate de aproximadamente 200 lobos em território nacional. A decisão é uma resposta direta ao aumento da população de lobos, que agora ultrapassa a marca de mil indivíduos na França, e à sua expansão para áreas agrícolas e arredores de grandes centros urbanos, onde não eram vistos há séculos.
Os números da crise: o avanço dos predadores
Segundo o Ministério da Agricultura, o limite anual de abate foi elevado de 19% para 21% da população estimada. Caso a pressão sobre os criadores de gado continue a crescer, a ministra sinalizou que esse teto pode ser estendido para 23%. O cenário descrito pelas autoridades é de emergência rural:
Expansão geográfica: as matilhas estão deixando as áreas montanhosas isoladas e avançando sobre planícies habitadas.
Ameaça às cidades: há relatos de lobos vagando a apenas 60 quilômetros de centros importantes como Nancy, Dijon e Troyes.
Prejuízos em Haute-Marne: apenas nesta região central, agricultores reportaram a morte de 850 ovelhas por ataques de lobos no último ano.
Sofrimento humano: a ministra ressaltou que os ataques estão mergulhando os agricultores em um estado de “estresse e dor terrível” devido às perdas financeiras e emocionais.
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A mudança de status na União Europeia
A decisão francesa não ocorre de forma isolada, mas está respaldada por uma mudança histórica na legislação ambiental do bloco. Em maio passado, o Parlamento Europeu votou a favor do rebaixamento do status de proteção do lobo: de “estritamente protegido” para apenas “protegido”.
Essa alteração jurídica concede aos países membros da UE maior flexibilidade para autorizar a caça e o manejo populacional como forma de mitigar danos econômicos, desde que sejam mantidas medidas para evitar que a espécie volte a ser ameaçada de extinção. A Comissão Europeia justificou a proposta com base em um censo de 2023, que apontou a presença de cerca de 20.300 lobos em toda a União Europeia, evidenciando uma recuperação populacional bem-sucedida, mas que gera novos desafios de convivência.
Proteção animal x segurança alimentar
De um lado, os agricultores argumentam que os métodos de proteção não letais — como cercas elétricas e cães de guarda — tornaram-se insuficientes diante do aumento das matilhas. De outro, grupos de proteção animal criticam o abate, argumentando que a presença do lobo é essencial para o controle natural de outras espécies, como javalis e veados, e que o foco deveria ser a coexistência pacífica por meio de subsídios e tecnologia de vigilância.
O governo de Emmanuel Macron, no entanto, parece ter inclinado a balança em favor do setor produtivo, buscando aliviar a tensão em regiões onde o sentimento de abandono estatal é alto e as perdas de rebanho inviabilizam pequenas propriedades familiares.
“O lobo está causando danos crescentes às nossas fazendas. Precisamos proteger quem nos alimenta e garantir que a atividade rural não seja extinta pelo medo e pelo prejuízo.”
Annie Genevard, Ministra da Agricultura da França.
Como França, Alemanha e Espanha gerenciam o retorno do predador
A decisão da França de elevar a cota de abate para 21% em 2026 reflete uma mudança de postura que ecoa em diferentes graus nos países vizinhos. Embora todos os Estados-membros da União Europeia devam seguir as diretrizes da Diretiva Habitats, a interpretação de “flexibilidade” varia significativamente entre Paris, Berlim e Madri.
Comparativo de políticas de manejo
1. França: a abordagem da “cota flexível”
A França adotou a postura mais pragmática e agressiva entre os três. Com uma população de pouco mais de mil lobos, o governo francês utiliza o abate como uma ferramenta de gestão populacional para evitar que as matilhas se estabeleçam perto de grandes cidades como Dijon e Nancy. A ministra Annie Genevard defende que o sofrimento dos agricultores e a morte de milhares de ovelhas justificam o aumento das cotas para até 23% da população total.
2. Alemanha: o equilíbrio burocrático
A Alemanha possui uma das maiores populações de lobos da Europa Central (cerca de 1.200 a 1.500 indivíduos). Diferentemente da França, a Alemanha não estabelece uma cota fixa nacional de abate. A política alemã prioriza a coexistência através de:
Fortificação: investimento massivo em cercas elétricas de alta voltagem.
Manejo individual: a lei permite o abate apenas de animais que “aprendem” a pular cercas ou que se tornam excessivamente ousados perto de humanos, após um rigoroso processo de autorização estadual.
3. Espanha: o modelo de proteção total
A Espanha detém uma das maiores populações de lobos da Europa (estimada em mais de 2.500 indivíduos), concentrada no Noroeste (Galiza e Castela e Leão). Em 2021, o governo central proibiu totalmente a caça ao lobo em todo o país, incluindo o norte do rio Douro, onde antes era permitida.
Conflito interno: essa política gerou uma batalha judicial entre o governo central e as regiões autônomas, que argumentam que o lobo está dizimando a pecuária extensiva.
Indenizações: a estratégia espanhola foca no pagamento de indenizações por ataques, embora os agricultores reclamem da lentidão e burocracia do sistema.
Análise de tendência: o efeito do Parlamento Europeu
A tendência para 2026 é de uma “francesização” das políticas europeias. A votação no Parlamento Europeu para rebaixar o status de proteção do lobo de “estritamente protegido” para “protegido” deu sinal verde para que países como Alemanha e Espanha comecem a discutir cotas de abate semelhantes às da França. A Comissão Europeia justifica que, com mais de 20.300 lobos no bloco, a espécie não corre mais risco imediato de extinção, permitindo um manejo mais focado na proteção dos rebanhos.
Com informações da Reuters