A imagem tradicional da Grande Muralha da China, feita de pedra e fortificações militares, ganhou uma sucessora tecnológica e biológica à altura. Um estudo recente detalhado pela IFLScience confirma o sucesso sem precedentes da Grande Muralha Verde (conhecida oficialmente como Programa de Floresta de Abrigo dos Três Nortes), um projeto de reflorestamento massivo que se estende por 3.046 quilômetros ao longo do norte do país. O feito mais impressionante? A conversão quase total do deserto de Mu Us — antes uma fonte implacável de poeira e degradação — em um sumidouro de carbono produtivo.
Publicada no site Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa aponta que esta floresta artificial não é apenas uma barreira física contra a desertificação, mas um componente ativo no ciclo global do carbono. Ao transformar solo arenoso em biomassa vegetal, a China conseguiu sequestrar milhões de toneladas de $CO_2$, oferecendo uma prova de conceito de que a intervenção humana em larga escala pode, de fato, reverter danos climáticos históricos.
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A engenharia do “milagre verde”
Diferente de plantios convencionais, a Muralha Verde exigiu soluções tecnológicas para sobreviver em condições extremas. A China implementou um sistema de “tabuleiros de xadrez de palha”, uma técnica de bioengenharia onde grades de palha de arroz ou trigo são enterradas na areia para fixar as dunas. Isso cria um microclima estável que permite às mudas de espécies resistentes à seca, como o espinheiro-marítimo e o salgueiro-do-deserto, criarem raízes profundas.
Os números da transformação são colossais:
Redução de tempestades: a frequência de nuvens de poeira que assolavam Pequim caiu de cerca de 26 dias por ano para menos de 3.
Cobertura vegetal: no deserto de Mu Us, a cobertura verde saltou de cerca de 1% para mais de 80% em algumas regiões, efetivamente “apagando” o deserto dos mapas topográficos tradicionais.
Sequestro de carbono: o estudo indica que a capacidade de absorção de carbono da região aumentou exponencialmente, ajudando a mitigar a pegada industrial do país.
O desafio da biodiversidade e a sustentabilidade
Apesar do entusiasmo, o relatório científico e especialistas ocidentais fazem uma ressalva crítica: a sustentabilidade a longo prazo depende da diversidade biológica. Nos primeiros anos, o projeto focou em monoculturas (plantação de uma única espécie), o que tornava as florestas vulneráveis a pragas e doenças.
Em resposta, a China mudou a estratégia para o que chamam de “silvicultura inteligente”, utilizando drones e monitoramento por satélite para gerenciar a introdução de ervas nativas e arbustos. O objetivo é criar um ecossistema resiliente que não dependa de irrigação artificial constante, mas que se torne autossustentável através da recuperação do lençol freático local — um fenômeno que já começou a ser observado com o retorno de pequenos rios e zonas úmidas no deserto de Mu Us.
Implicações globais: um modelo para a África e o Brasil?
O sucesso chinês serve como um farol para a Grande Muralha Verde da África, que tenta impedir o avanço do Saara. A lição aprendida em Mu Us é que o reflorestamento em zonas áridas não é apenas sobre plantar árvores, mas sobre restaurar a dignidade social: as comunidades locais foram integradas ao projeto, transformando a preservação em fonte de renda através do cultivo de plantas medicinais e ecoturismo.
Para o Brasil, embora o contexto bioma seja o oposto (preservação da floresta tropical vs. recuperação de deserto), a tecnologia chinesa de monitoramento de biomassa e sequestro de carbono oferece ferramentas valiosas para a restauração da Mata Atlântica e o combate à desertificação no Semiárido.