Grupo investe US$ 50 milhões em projeto de conservação na Amazônia

Iniciativa prevê manejo florestal e créditos de carbono em Carauari, com promessa de 400 empregos diretos

10/08/2025 REUTERS/Anderson Coelho

No município de Carauari, a 780 quilômetros de Manaus, o Projeto Mejuruá ocupa 900 mil hectares de floresta nativa e pretende operar por três décadas. A iniciativa combina manejo florestal certificado — com extração seletiva de madeira de espécies como cumaru e maçaranduba — e geração de créditos de carbono no mercado voluntário. A operação enfrenta o principal desafio econômico da região: os quase 4.000 quilômetros até o Atlântico encarecem drasticamente a logística e definem a viabilidade do modelo.

A BR Arbo Gestão Florestal, empresa proprietária da área em Carauari e responsável pelo Projeto Mejuruá, definiu como estratégia não desmatar os 20% da propriedade que seriam permitidos pelo Código Florestal. Em vez de converter a floresta em pasto ou lavoura, a proposta é manter a floresta em pé e envolver as comunidades locais em projetos que valorizem a biodiversidade. Maurizio Rocchi, coordenador do Projeto Mejuruá, explica que além da localização estratégica, a escolha por Carauari teve como base a segurança jurídica. “Essa terra é uma das poucas legalizadas no Brasil”, disse. A experiência brasileira deve servir de modelo para futuros projetos do grupo em outros países de floresta tropical, como Tanzânia e Congo.

Créditos de carbono: desafios e avanços na governança

A aposta em créditos de carbono não vem sem riscos. Nos últimos anos, casos fraudulentos ou mal executados expuseram fragilidades – áreas que continuaram sendo desmatadas apesar dos créditos comercializados, comunidades que nunca viram os benefícios prometidos e certificações concedidas sem a fiscalização adequada.

O mercado, porém, tem amadurecido. Os padrões internacionais, como VCS (Verified Carbon Standard) e CCB (Climate, Community & Biodiversity), tornaram-se mais rigorosos, com auditorias independentes obrigatórias. No Brasil, o debate sobre regulação ganhou força, com propostas de controle estatal e mecanismos de rastreabilidade.

Rocchi é direto sobre a necessidade do carbono. “A logística é muito onerosa. O projeto de carbono entra para dar segurança. Se o manejo não funcionar, temos a garantia da conservação da floresta”, explica.

Carlos Canabarro, presidente da BR Arbo, detalha a lógica da operação: “Quando você faz a extração madeireira, já está renovando a floresta e iniciando um novo ciclo de absorção do carbono. Essas duas atividades dão rentabilidade e segurança, além de melhorar o meio ambiente.”

O projeto de créditos prevê US$ 40 milhões ao longo de 40 anos, que seriam investidos em geração de energia com fontes renováveis, água potável, internet e produtos não madeireiros da floresta. Marilson Rodrigues Dini, articulador comunitário e morador da região há 45 anos, destaca a complementaridade das atividades. “A gente podia vender madeira através de plano de manejo florestal sem fazer carbono. Mas quando a empresa se propõe a esse desafio, a comunidade tem que participar, o que gera um benefício coletivo.”

O manejo florestal está previsto para começar em julho de 2027 e seguirá ciclos de 30 anos que permitem a renovação natural da floresta.

Controvérsias e denúncias de comunidades tradicionais

Nem todos os moradores da região compartilham do entusiasmo com o projeto. Desde 2023, parte da comunidade tradicional do Riozinho denuncia que a BR Arbo não realizou consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para projetos que afetam territórios tradicionais. “A gente mora aqui desde a época que se cortava borracha, há mais de três gerações. E de repente chega alguém dizendo que a tua casa não é tua”, declarou o presidente da Associação dos Moradores do Baixo Riozinho (Asmobri), Filho Desidério, em entrevista à agência Amazônia Real em maio de 2025.

Em dezembro de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas abriu um inquérito civil público para investigar suspeitas de violações no Projeto Mejuruá. A investigação constatou a sobreposição entre o território da comunidade e a área do projeto, além de problemas na auditoria — os auditores contratados pela BR Arbo não permaneceram sozinhos com os moradores durante as visitas, sendo acompanhados por funcionários da empresa. Em fevereiro de 2025, a Procuradoria da República no Amazonas expediu uma recomendação para que a BR Arbo e a certificadora Verra suspendessem o projeto até a regularização fundiária do território e que a empresa encerrasse o contato direto com os comunitários.

Questão fundiária divide opiniões

A insegurança fundiária é um dos maiores problemas da Amazônia. Milhares de famílias ocupam terras há décadas sem documentação formal, tornando-as vulneráveis a grileiros e dificultando acesso a crédito. Na Amazônia Legal, estima-se que mais de 60% das propriedades rurais carecem de regularização adequada.

No Projeto Mejuruá, essa questão tornou-se central. A BR Arbo tem registros de propriedade da área, conhecida como Fazenda da Aplub, desde 1947. Ao longo das décadas, famílias de ribeirinhos se estabeleceram ali, muitas trabalhando na extração de seringa. Nos anos 2000, sob o nome de Aplup, a empresa tentou o manejo florestal por três anos, mas interrompeu as atividades devido aos custos. Canabarro, que já era diretor-presidente, conta que a atividade madeireira gerou prejuízos.

Quando o grupo assumiu o controle e decidiu desenvolver o projeto de conservação, dezenas de famílias viviam na área sem documentação. A decisão foi regularizá-las.

Vitorino da Silva, vice-presidente da Asmobri, personifica essa transformação. Ele passou a vida trabalhando na extração de seringa, em um sistema no qual 60% de sua renda era devida ao seu patrão. Agora, Silva lidera o processo de transferência de títulos para as famílias que, como ele, vivem há décadas na propriedade.

As mudanças na infraestrutura são visíveis para alguns ribeirinhos. Antes, qualquer necessidade de comunicação ou emergência médica significava dias de viagem de canoa até a cidade. A falta de energia elétrica obrigava as famílias a salgar peixes e carnes para conservação. “Agora, temos comunicação, poço artesiano. Antes eram dias de canoa. A molecada acessa a internet no celular”, diz Vitorino.

Para ele, a vida ribeirinha tradicional permanece intocada. As famílias continuam vivendo da pesca, da agricultura familiar e da extração de produtos da floresta. Até agora, 90 famílias foram regularizadas no Riozinho, com mais 70 processos em andamento.

A suspensão e o retorno do projeto

Em fevereiro de 2025, o MPF do Amazonas emitiu uma recomendação de paralisação do projeto. “Levamos ao Conselho Nacional do Ministério Público e a recomendação foi anulada”, diz Rocchi. A decisão definitiva saiu em dezembro. O conselheiro responsável, Antônio Edílio Magalhães Teixeira, encontrou dois problemas: primeiro, a denúncia inicial foi enviada diretamente para o procurador, sem passar pelo sorteio obrigatório; segundo, a recomendação foi muito além do que deveria — em vez de proteger os direitos de uma comunidade ribeirinha de cerca de 430 pessoas, virou uma crítica generalizada contra projetos de carbono e paralisou 900.000 hectares. O CNMP concluiu que o procurador usou sua função para outro objetivo e agiu fora de sua competência.

Nos dez meses de suspensão, os investimentos sociais pararam, mas a regularização fundiária seguiu, incluindo o caso de Vitorino. A BR Arbo afirma que o Projeto Mejuruá é legal, realizado em terras privadas com recursos privados, visando a conservação da floresta e o desenvolvimento sustentável. A empresa diz que os acordos firmados com associações locais atendem aos interesses das comunidades e garantem áreas de uso comum. Segundo a empresa, benefícios como água potável, energia elétrica e internet foram oferecidos espontaneamente.

Para Dini, que acompanha o projeto há dois anos, há potencial de transformação social. “É inclusão social. Eu sei da dificuldade de viver na Amazônia com tanta riqueza e gente tão pobre. Riqueza de PIB, pobre de serviço público. O resultado é quando se envolve a comunidade.”

A iniciativa prevê 400 empregos diretos e até 2.000 indiretos, além de uma planta industrial que aproveitará 100% da madeira manejada. Os resíduos alimentarão uma termelétrica para gerar energia limpa e o excedente abasteceria a cidade, que hoje depende de diesel. Resta saber se as divisões geradas na comunidade permitirão que esses objetivos se concretizem de forma que beneficie todos os moradores da região.