Um novo estudo conduzido pela Universidade do Colorado Denver revela que as mudanças climáticas e incêndios florestais estão ameaçando espécies de libélulas com manchas escuras nas asas em todo o território americano. Pela primeira vez, pesquisadores demonstraram que traços reprodutivos – e não apenas a sobrevivência – podem determinar se populações inteiras desaparecerão em um mundo em aquecimento.
A pesquisa, publicada na revista Nature Climate Change e liderada pela estudante de doutorado Sarah Nalley, utilizou 40 anos de dados públicos para documentar como libélulas “ornamentadas” – aquelas com manchas escuras de melanina nas asas – estão desaparecendo de habitats queimados e regiões mais quentes.
O problema está no superaquecimento: imagens térmicas revelam que as manchas escuras absorvem calor mais rapidamente, fazendo com que os machos passem mais tempo se recuperando e menos tempo competindo por parceiras.
“As libélulas sobreviveram a asteroides, mas agora as mudanças climáticas e os incêndios as ameaçam de maneiras com as quais a evolução não consegue acompanhar”, disse Sarah Nalley. “Nossos achados sugerem que a adaptação sozinha pode não ser rápida o suficiente para proteger espécies em um clima que muda rapidamente”, disse.
O estudo surge em um momento crítico para a biodiversidade global. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média global de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais – o primeiro ano a romper o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris.
Impacto além da sobrevivência
O diferencial da pesquisa está na abordagem: enquanto estudos tradicionais focam na capacidade de sobrevivência das espécies, os cientistas de Colorado Denver analisaram como o aquecimento afeta o comportamento reprodutivo. “Isso muda como pensamos a vulnerabilidade”, explicou o professor assistente Michael Moore, coautor do estudo.
“Não se trata apenas de os animais conseguirem sobreviver após incêndios, é sobre conseguirem se reproduzir nesses ambientes modificados. Essa é a chave para a sobrevivência a longo prazo.”
As libélulas desempenham papel essencial nos ecossistemas como principais predadores de mosquitos e fonte de alimento para aves, peixes e anfíbios. Seu declínio tem efeito dominó em cadeias alimentares inteiras.
Crise mais ampla da biodiversidade
A situação das libélulas reflete uma crise muito maior. Uma análise recente da Universidade Estadual do Oregon identificou mais de 3.500 espécies animais ameaçadas pelas mudanças climáticas, incluindo aracnídeos, centopeias e invertebrados marinhos.
No Brasil, a situação é particularmente preocupante. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) compilaram mais de 20 mil projeções de risco para 7,5 mil espécies da biodiversidade brasileira, concluindo que a maioria das espécies sofrerá impactos negativos e até 25% podem estar ameaçadas de extinção se o aquecimento continuar no ritmo atual.
Segundo a Segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 47.187 espécies já estão ameaçadas de extinção das 169.420 avaliadas. Nos oceanos, corais que antes eram exuberantes florestas marinhas repletas de algas, peixes, moluscos e crustáceos estão se transformando em desertos esbranquiçados devido ao aumento da temperatura e acidificação das águas.
Janela de oportunidade
Apesar do cenário sombrio, cientistas enfatizam que ainda existe margem para ação. Estudos indicam que o cumprimento das metas do Acordo de Paris poderia reduzir significativamente os impactos sobre a biodiversidade global.
“Os anos individuais que ultrapassam o limite de 1,5 grau não significam que a meta de longo prazo foi ultrapassada”, afirmou António Guterres, secretário-geral da ONU. “Isso significa que precisamos lutar ainda mais para entrar no caminho certo.”
A pesquisa sobre libélulas sublinha a necessidade de repensar estratégias de manejo da vida selvagem para considerar não apenas a sobrevivência, mas também comportamentos de acasalamento e sucesso reprodutivo. Em um planeta onde criaturas que sobreviveram a asteroides agora enfrentam ameaças sem precedentes, cada fração de grau de aquecimento pode significar a diferença entre preservação e extinção local de espécies fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas.