O relatório “Pilhagem Climática: Como uma poderosa minoria está aprisionando o mundo no desastre“ expõe uma realidade alarmante: uma única pessoa entre os 0,1% mais ricos emite mais carbono em um dia do que metade da população mundial mais pobre em um ano. Segundo a Oxfam, essa “imprudência carbônica” não se limita ao estilo de vida luxuoso — que inclui superiates e jatos particulares —, mas estende-se a carteiras de investimentos em indústrias altamente poluentes, que aprisionam o planeta em um ciclo de colapso climático.
O chamado “Dia dos Ricos Poluidores” (10 de janeiro) marca o momento em que a elite global ultrapassa a cota individual de CO₂ para manter o limite de 1,5°C.
Se considerado apenas o 0,1% mais rico, o orçamento anual de carbono foi consumido em apenas três dias.
Estima-se que as emissões deste grupo causem 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o fim do século.
Países de baixa renda podem acumular perdas de US$ 44 trilhões até 2050 devido ao consumo excessivo das nações e indivíduos mais abastados.
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Para Nafkote Dabi, líder de Política Climática da Oxfam, os governos possuem um caminho claro para cumprir as metas do Acordo de Paris: focar nos maiores poluidores. “Ao reprimir a extrema imprudência dos super-ricos, os líderes globais têm a oportunidade de recolocar o mundo no caminho das metas climáticas”, afirma. A influência desse grupo, contudo, é vasta: na última cúpula climática realizada no Brasil, o número de lobistas de combustíveis fósseis (1.600) superou quase todas as delegações nacionais.
Justiça tributária como solução climática
A solução proposta pela organização envolve uma reforma estrutural na economia global. Entre as medidas urgentes estão o aumento de impostos sobre a renda e a riqueza extrema, além da taxação de lucros excessivos de corporações de petróleo, gás e carvão. De acordo com o documento “Como aumentar os impostos sobre os lucros dos combustíveis fósseis“, um imposto aplicado a 585 grandes empresas do setor poderia arrecadar US$ 400 bilhões anuais, valor suficiente para cobrir os danos climáticos no Sul Global.
“A imensa riqueza e o poder das corporações permitiram uma influência injusta na formulação de políticas, diluindo as negociações climáticas necessárias.”
A pressão por mudanças também ganha contornos jurídicos. A Corte Internacional de Justiça (CIJ) já confirmou que os países têm a obrigação legal de reduzir emissões para proteger direitos fundamentais à vida e à saúde. Para a Oxfam, o atual sistema neoliberal deve ser substituído por uma economia que priorize a sustentabilidade e a igualdade, garantindo que o custo da crise não recaia sobre aqueles que menos contribuíram para o problema.
Os pilares técnicos que sustentam a análise:
1. Definição do Orçamento Global de Carbono ($1,5°C$)
O ponto de partida é o Relatório de Lacuna de Emissões 2024 do PNUMA.
A Meta: Para limitar o aquecimento global a 1,8°C (meta segura), o nível global de emissões em 2030 não deve ultrapassar 24 GtCO2e (gigatoneladas de equivalente de dióxido de carbono).
A Conversão: Como o estudo foca especificamente em $CO_2$, a Oxfam utiliza a participação histórica do gás nas emissões totais ($74,1\%$), chegando a um limite de 17,8 GtCO2 para o ano de 2030.
2. Cálculo da Cota Individual (Equidade)
A metodologia aplica um princípio de igualdade radical: divide-se o limite total de emissões pela população global projetada pela ONU para 2030.
Cálculo: $17,8 \text{ bilhões de toneladas de } CO_2 \div 8,5 \text{ bilhões de pessoas}$.
Resultado: 2,1 toneladas de $CO_2$ por pessoa/ano. Este é o valor considerado o “limite sustentável” para cada habitante do planeta.
3. Distribuição por Faixas de Riqueza
A Oxfam utiliza o modelo de desigualdade de carbono desenvolvido pelo Instituto Ambiental de Estocolmo, que categoriza a população mundial em:
1% mais rico: Indivíduos com renda anual superior a aproximadamente US$ 140.000.
10% mais ricos: Renda superior a US$ 38.000.
50% mais pobres: A metade inferior da pirâmide econômica global.
4. Estimativa de Emissões Reais (2023)
Ao analisar os dados mais recentes disponíveis (2023), a pesquisa constatou o abismo real:
Média do 1% mais rico: Emitem 75,1 toneladas de $CO_2$ por pessoa ao ano.
Consumo Diário: Ao dividir 75,1 toneladas por 365 dias, obtém-se 0,206 toneladas/dia.
5. O Cálculo do “Dia do Esgotamento”
Para chegar ao dado de que o 1% mais rico exaure seu orçamento em 10,2 dias, a conta é simples: