A humanidade acaba de atravessar o período mais quente de sua história documentada. Um relatório contundente publicado nesta segunda-feira (23) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) revela que o sistema climático da Terra entrou em um estado de desequilíbrio sem precedentes. Segundo o documento, as consequências das emissões de gases de efeito estufa acumuladas até 2025 vão reverberar não apenas por décadas, mas por milênios.
Resumo
O que é: o relatório anual da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre o estado do clima global.
Indicadores: recordes de calor oceânico, elevação do nível do mar e concentrações de CO2 atingindo o nível mais alto em 2 milhões de anos.
Impacto humano: 1,2 bilhão de trabalhadores expostos a calor perigoso e 250 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas na última década.
Desequilíbrio energético: pela primeira vez, o relatório destaca que a Terra retém muito mais energia solar do que consegue devolver ao espaço devido ao “cobertor” de gases estufa.
“Cada indicador climático essencial está piscando em vermelho”, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres. O relatório confirma que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, consolidando a década de 2015-2025 como o marco zero da aceleração da crise ambiental.
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O oceano como escudo e vítima
Os oceanos, que absorvem cerca de 91% do excesso de energia térmica do planeta, atingiram o nono ano consecutivo de calor recorde. Mesmo com a influência resfriadora do fenômeno La Niña no ano passado — que manteve a temperatura global em 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais, ligeiramente abaixo dos 1,55 °C de 2024 —, as águas profundas continuam a aquecer.
Essa mudança é classificada pelos cientistas como irreversível em escala secular. O impacto direto é sentido na segurança alimentar de 3 bilhões de pessoas que dependem da vida marinha, além de alimentar tempestades mais destrutivas e acelerar o derretimento das geleiras, essenciais para o suprimento de água de 2 bilhões de indivíduos.
A economia do desastre
A crise climática deixou de ser uma previsão para se tornar um prejuízo contábil bilionário. Somente os incêndios florestais na Califórnia, em janeiro de 2025, causaram danos de US$ 60 bilhões (cerca de R$ 317 bilhões). Além das perdas materiais, o relatório destaca o avanço de doenças como a dengue e a exposição de um terço da força de trabalho global a condições de calor mortal.
Para Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, o dado mais preocupante de 2025 é o “desequilíbrio energético”. Em um cenário estável, a Terra deveria devolver ao espaço a mesma quantidade de energia que recebe do Sol. Hoje, os gases gerados pela queima de petróleo, carvão e gás retêm esse calor, criando um efeito estufa que altera a física do planeta.
Ameaça à segurança global
Guterres foi enfático ao ligar a crise climática à instabilidade geopolítica. A escassez de recursos e os desastres naturais já forçaram o deslocamento de 250 milhões de refugiados climáticos nos últimos dez anos. “Nossa dependência de combustíveis fósseis está desestabilizando tanto o clima quanto a segurança global”, afirmou, reiterando a urgência de uma transição acelerada para energias renováveis.
Com o possível retorno do fenômeno El Niño ainda este ano, a comunidade científica teme um novo salto nas temperaturas em 2026, fechando ainda mais a janela de oportunidade para cumprir as metas do Acordo de Paris.
Onde fica o excesso de calor na terra?
O que é o desequilíbrio energético?
É a diferença entre a energia solar que entra na atmosfera e o calor que consegue escapar de volta para o espaço. devido aos gases de efeito estufa, o planeta retém hoje muito mais energia do que libera.
A distribuição do excesso de energia (dados OMM 2026)
O relatório confirma que a grande maioria do calor aprisionado é absorvida pelos oceanos, atuando como o principal regulador térmico do planeta:
🌊 Oceanos: 91% (absorção massiva de calor em todas as camadas, incluindo águas profundas)
⛰️ Terra (solo): 5% (aquecimento da superfície terrestre e subsolo)
❄️ Criosfera (gelo): 3% (derretimento de mantos de gelo na Groenlândia, antártica e geleiras)
☁️ Atmosfera: 1% (aquecimento do ar que respiramos e intensificação de eventos climáticos)
A consequência:
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alerta: “Nós viveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos”. O aquecimento oceânico já é considerado irreversível nesta escala de tempo, ameaçando ecossistemas marinhos e acelerando a elevação do nível do mar.