O ano de 2026 começa sob alerta máximo para a segurança hídrica da Grande São Paulo. O Sistema Cantareira, principal manancial da região, está estacionado próximo dos 20% de sua capacidade operacional — índice inferior ao registrado em janeiro de 2014, quando o estado enfrentou sua pior crise de desabastecimento. O cenário atual obriga a Sabesp a manter medidas de restrição que, na prática, têm gerado impactos desiguais na população.
Desde agosto do ano passado, a companhia de saneamento realiza a redução da pressão nas tubulações. De acordo com a Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), o sistema opera na chamada “faixa três de atenção”, o que permite até dez horas diárias de pressão reduzida.
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Desabastecimento seletivo
A estratégia, embora defendida como técnica pela Sabesp, é alvo de críticas por especialistas em saneamento. Amauri Pollachi, coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento, define a medida como um “desabastecimento seletivo”. Segundo ele, as áreas mais abastadas e verticalizadas não sentem os efeitos, enquanto as periferias, localizadas em pontos mais distantes ou elevados em relação aos reservatórios, sofrem interrupções totais.
“Quando você faz esse sistema de restrição com a redução de pressão, aqueles que estão mais distantes dos reservatórios terão maior dificuldade de recebimento da água ao final desse período.”
É o caso de Ana Maria dos Santos, auxiliar de limpeza e moradora do Grajaú, no extremo sul da capital. Vizinha de represas, ela convive com a escassez diária. “Eu acordo de manhã, tem que esperar para encher todas as garrafas. Quando chega determinado horário, a água é desligada e aí toma banho de canequinho”, relata.
Planejamento e investimentos
A Sabesp argumenta que a medida é transitória e necessária diante da seca severa. Segundo Marco Barros, diretor regional da companhia, a gestão da pressão permitiu economizar 80 milhões de metros cúbicos desde agosto, volume suficiente para abastecer a capital paulista por um mês.
Para enfrentar a frequência crescente de estiagens decorrentes das mudanças climáticas, a empresa prevê o investimento de R$ 5 bilhões até 2027. O montante será destinado à interligação de represas e reforço da malha de tubulações. No entanto, o nível do Alto Tietê, que abastece 13 milhões de pessoas, também preocupa: o reservatório está 37% mais baixo do que no período crítico de uma década atrás.