Ninhos de tartaruga-verde podem soterrar ‘rochas de plástico’ e comprometer a espécie

Estudo da Fapesp revela que tartarugas-verdes em Trindade estão soterrando plastiglomerados. Entenda como as rochas de plástico ameaçam a reprodução da espécie no Brasil

Filhotes de tartaruga-verde
Foto: Animalia

A Ilha de Trindade, localizada a cerca de 1.140 quilômetros da costa do Espírito Santo, é reconhecida mundialmente como um santuário de biodiversidade e o principal sítio reprodutivo da tartaruga-verde (Chelonia mydas) no Brasil. No entanto, o isolamento geográfico não foi suficiente para proteger esse ecossistema do avanço da poluição antropogênica. Um estudo recente, apoiado pela Fapesp, revelou um cenário alarmante: as tartarugas estão soterrando “rochas de plástico” ao construírem seus ninhos, um fenômeno que ameaça o sucesso reprodutivo da espécie.

  • Pesquisadores da USP e da Fapesp identificam “rochas de plástico” enterradas por tartarugas durante a desova;

  • O fenômeno ocorre na Ilha de Trindade (ES), um dos ecossistemas mais preservados e isolados do território brasileiro;

  • A presença de detritos sintéticos altera a temperatura do solo, fator que define o sexo e a sobrevivência dos filhotes.

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A gênese das “rochas de plástico”

Essas formações, denominadas tecnicamente como plastiglomerados, surgem da fusão de detritos plásticos — principalmente redes de pesca e garrafas PET — com sedimentos naturais, como areia, rochas e conchas. O processo de formação ocorre devido ao calor, muitas vezes gerado por atividades humanas locais ou pela própria dinâmica sedimentar da ilha. O que antes era apenas poluição flutuante transformou-se em uma nova camada geológica, integrando-se de forma permanente ao terreno da ilha.

O estudo indica que, ao escavarem a areia para depositar seus ovos, as tartarugas-verdes acabam revolvendo essas rochas sintéticas. Em muitos casos, os fragmentos de plástico são enterrados junto aos ovos ou bloqueiam o caminho das fêmeas. A presença desse material não é apenas um obstáculo físico; ela representa uma alteração química e térmica profunda no microambiente do ninho.

O impacto térmico e a definição do sexo

Um dos pontos mais críticos levantados pelos pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) diz respeito à temperatura. A determinação do sexo das tartarugas marinhas é dependente do calor: temperaturas mais altas tendem a produzir fêmeas, enquanto solos mais frios geram machos. O plástico, por possuir propriedades de retenção térmica diferentes da areia natural, pode criar “ilhas de calor” dentro dos ninhos.

Essa alteração térmica pode levar a um desequilíbrio populacional severo, com o nascimento desproporcional de fêmeas ou, em casos de calor extremo, a morte dos embriões antes mesmo da eclosão. Além disso, a decomposição desses materiais libera microplásticos no solo, que podem ser absorvidos pelos tecidos dos animais, afetando sua saúde a longo prazo.

“A presença de plastiglomerados em áreas de desova marca a transição de uma poluição visual para uma alteração geológica com consequências biológicas imprevisíveis.”

Vigilância e soberania ambiental

A situação na Ilha de Trindade é um reflexo da gestão global de resíduos. Grande parte do plástico encontrado na ilha é proveniente de correntes marítimas internacionais, carregando lixo de diversos continentes até a costa brasileira. Para a IstoÉ, este cenário reforça a necessidade de uma postura diplomática e ambiental mais incisiva por parte do governo brasileiro em fóruns internacionais, como a ONU.

A proteção de Trindade é também uma questão de soberania. A ilha abriga um posto da Marinha do Brasil e é fundamental para a delimitação da Amazônia Azul. O comprometimento de suas espécies emblemáticas, como a tartaruga-verde, sinaliza uma falência nos mecanismos de controle de poluição transfronteiriça. A pesquisa da Fapesp não é apenas um alerta ecológico, mas um chamado analítico sobre como o consumo desenfreado de polímeros sintéticos está reescrevendo a geologia do planeta.

Perspectivas de conservação

Especialistas defendem que a solução para Trindade não passa apenas pela limpeza local — tarefa hercúlea dada a formação das rochas —, mas pela redução drástica do descarte de equipamentos de pesca e plásticos de uso único. Programas de monitoramento contínuo, como o realizado pelo Projeto Tamar, são essenciais para mitigar os danos, mas a ciência é clara: sem uma mudança estrutural na cadeia produtiva global, os santuários brasileiros continuarão a ser depósitos de detritos industriais, custando a sobrevivência de espécies milenares.