O que à primeira vista parece um acessório inusitado é, na verdade, uma das ferramentas mais avançadas da agrociência nacional. No interior de São Paulo, o Instituto de Zootecnia (IZ) utiliza o sistema de “mochilinha” para monitorar individualmente a emissão de gás metano de bovinos. A tecnologia, adaptada de modelos europeus, foca no metano entérico — aquele expelido principalmente pelo “arroto” (eructação) e respiração dos animais.
A pesquisa revela que cerca de 95% do metano emitido pelo boi provém da boca. Através de um tubo conectado às narinas e um medidor alojado na bolsa de couro, os cientistas conseguem coletar dados precisos sobre a pegada de carbono de cada indivíduo. O objetivo é duplo: alimentar inventários nacionais de impacto ambiental e, crucialmente, realizar a seleção genética de animais mais eficientes e sustentáveis.
Genética verde: estudos do IZ indicam que cerca de 30% da variação na emissão de metano entre bovinos é de origem genética, o que permite selecionar touros que produzam menos gás para a mesma quantidade de carne.
Aparato tecnológico: o equipamento utiliza uma estrutura mista, com partes importadas e componentes produzidos no Brasil para suportar as condições do campo.
Foco no rebanho: desde 2018, a pesquisa monitora machos da raça Nelore e, recentemente, expandiu os testes para a raça Canchim.
Desafio setorial: o agronegócio é responsável por mais de 75% da emissão de metano no Brasil, e a mitigação desse gás é vital para as metas climáticas globais.
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A pesquisadora Maria Eugênia Mercadante, do Instituto de Zootecnia, explica que o conhecimento individualizado é o que torna o projeto assertivo. Ao contrário de estimativas genéricas, a “mochilinha” permite saber exatamente quanto cada boi emite sob uma dieta específica. Com o metano sendo responsável por cerca de um terço do aquecimento global, a capacidade de selecionar animais que emitem menos gás sem perder produtividade é um trunfo estratégico para o Brasil.
Este projeto é parte de uma rede coordenada pela Embrapa, que processa as análises químicas dos gases e integra os resultados a outros estudos em diversas regiões do país. A ciência brasileira busca, assim, transformar a imagem do setor, provando que é possível aliar produção de proteína animal com responsabilidade climática.
Raio-X da emissão de metano bovino
| Característica | Detalhe Técnico | Fonte do Dado |
| Origem da Emissão | 95% pela boca (eructação/respiração) | Instituto de Zootecnia |
| Influência Genética | ~30% da diferença entre indivíduos | Pesquisa IZ |
| Público do Estudo | Nelore e Canchim | Rebanho experimental |
| Início do Projeto | 2018 (mochilas individuais) | Maria Eugênia Mercadante |
O fator nutrição
Os estudos conduzidos pelo Instituto de Zootecnia (IZ) e pela Embrapa focam primordialmente na identificação da variabilidade genética para a seleção de animais mais eficientes. No entanto, a integração de estratégias nutricionais é uma frente complementar essencial para acelerar a redução de metano nos rebanhos comerciais.
Embora o texto destaque que 30% da diferença de emissão entre bovinos se deve à genética, os outros 70% estão ligados ao ambiente e à dieta. Nesse contexto, os aditivos alimentares atuam diretamente no rúmen para inibir a metanogênese.
Aditivos e estratégias nutricionais em teste
As pesquisas brasileiras avaliam diversos compostos que, somados à genética superior, podem potencializar os resultados:
Lipídios e ácidgos Graxos: a inclusão de fontes de gordura na dieta (como grãos de oleaginosas) ajuda a reduzir a fermentação entérica e fornece mais energia para o animal.
Taninos e saponinas: compostos secundários de plantas que possuem propriedades antimicrobianas naturais, capazes de reduzir a população de protozoários e bactérias metanogênicas no rúmen.
Óleos essenciais: extratos de plantas (como cravo, canela e orégano) que modulam a microbiota ruminal para uma fermentação mais eficiente e menos poluente.
Compostos sintéticos (como o 3-NOP): aditivos desenvolvidos especificamente para bloquear a enzima responsável pela produção de metano nos últimos estágios da digestão.
Uso de nitratos: testados como receptores alternativos de hidrogênio no rúmen, desviando o elemento que seria usado para formar o gás metano ($CH_4$).
Objetivo do cruzamento genética + nutrição
A pesquisadora Maria Eugênia Mercadante ressalta que o foco principal do IZ é conhecer a emissão em diferentes dietas para alimentar inventários de impacto ambiental. Ao identificar indivíduos que emitem menos metano para a mesma produção de carne, a introdução de aditivos torna-se muito mais eficaz, pois o animal já possui uma predisposição biológica para a baixa emissão.