Segredo milenar da Amazônia é a chave para o reflorestamento global, diz estudo

Pesquisadores brasileiros demonstram que a adição de Terra Preta de Índio ao solo comum potencializa o desenvolvimento de espécies nativas e aumenta a absorção de carbono

População ribeirinha na Amazônia DW
População ribeirinha na Amazônia Foto: Deustsche Welle

O reflorestamento de áreas degradadas é um dos maiores desafios ambientais do século XXI, e a solução para acelerar esse processo pode estar enterrada há milênios na bacia amazônica. Um estudo recente, apoiado pela Fapesp, revelou que a utilização da Terra Preta de Índio (TPI) — um solo extremamente fértil criado por populações ancestrais — pode aumentar o diâmetro de árvores nativas em até 88%. A descoberta abre novos caminhos para tornar o reflorestamento não apenas mais rápido, mas também mais resiliente e eficiente na captura de gases de efeito estufa.

Resumo

  • A descoberta: o uso de Terra Preta de Índio aumenta o diâmetro de árvores em até 88% e triplica a biomassa de mudas nativas.

  • O que é TPI: um solo ultra fértil criado por povos ancestrais da Amazônia há milhares de anos, rico em matéria orgânica e minerais.

  • Papel dos microrganismos: a riqueza bacteriana e fúngica da terra preta potencializa a absorção de nutrientes e protege as raízes.

  • Impacto climático: árvores mais fortes e de crescimento rápido aceleram o sequestro de carbono da atmosfera.

  • Próximos passos: a ciência busca replicar a fórmula da TPI para criar fertilizantes sintéticos de alto desempenho, preservando as reservas originais.

A Terra Preta de Índio é um solo antropogênico, ou seja, foi modificado pela ação humana entre 450 a.C. e 950 d.C. Diferente dos solos tropicais comuns, que costumam ser ácidos e pobres em nutrientes, a TPI é rica em matéria orgânica, carvão vegetal (biochar) e nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio. Esses componentes foram acumulados ao longo de séculos através do descarte de resíduos domésticos, ossos de animais e restos de colheitas pelas populações indígenas pré-colombianas. O resultado é um ecossistema subterrâneo único, com uma microbiota vibrante que permanece fértil mesmo após milênios.

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O poder da microbiota no crescimento vegetal

A pesquisa conduzida por cientistas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) testou o impacto da TPI no desenvolvimento de mudas de espécies florestais. Ao misturar apenas uma pequena porcentagem de terra preta ao solo convencional, os resultados foram impressionantes. Além do aumento no diâmetro do caule, a biomassa total das plantas — que inclui raízes, folhas e ramos — chegou a ser três vezes maior do que a das plantas cultivadas em solos sem o aditivo ancestral.

O segredo desse crescimento explosivo não está apenas na química do solo, mas na sua biologia. A Terra Preta de Índio abriga comunidades de bactérias e fungos que agem como “turbinadores” biológicos. Esses microrganismos auxiliam as raízes na absorção de água e nutrientes, além de protegerem a planta contra doenças. “A TPI contém microrganismos que são verdadeiros aliados das árvores, funcionando como um suplemento natural que prepara a planta para enfrentar as condições adversas de um solo degradado”, explicam os pesquisadores no relatório da Fapesp.

Sustentabilidade e captura de carbono

A aplicação desses achados vai além da simples jardinagem ou silvicultura. No contexto da crise climática, árvores que crescem mais rápido e de forma mais robusta conseguem sequestrar carbono da atmosfera com muito mais eficiência. Um reflorestamento potencializado pela TPI poderia reduzir significativamente o tempo necessário para que uma floresta jovem comece a exercer seu papel regulador no clima global. Além disso, a presença do biocarvão na terra preta garante que o carbono orgânico permaneça estocado no solo por períodos muito longos, evitando sua liberação para a atmosfera.

Entretanto, os cientistas ressaltam um ponto ético e logístico crucial: a Terra Preta de Índio é um patrimônio arqueológico e ambiental finito. O objetivo do estudo não é minerar as reservas existentes na Amazônia para exportar terra, mas sim compreender e “mimetizar” sua composição. Ao identificar quais microrganismos e componentes químicos geram esse efeito de crescimento, a ciência poderá criar “Terras Pretas Artificiais” ou biofertilizantes customizados que repliquem o poder do solo amazônico em larga escala, sem degradar os sítios arqueológicos originais.

Este encontro entre a arqueologia, a microbiologia e a ecologia demonstra que as soluções para o futuro muitas vezes dependem de olharmos com humildade para o passado. Os antigos habitantes da Amazônia criaram, intencionalmente ou não, uma tecnologia de solo que hoje pode ser a ferramenta mais poderosa para restaurar os pulmões do mundo.

Com informações da Agência Fapesp