Turismo que transforma: educação ambiental e conservação no coração da Amazônia

Expedições unem o contato com comunidades ribeirinhas, a conservação da biodiversidade e experiências na floresta para redefinir o sentido de viajar

Jonne Roriz/ Nosso Impacto
Barco La Jangada, da Expedição Katerre, no rio Jauaperi Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

São 430 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas, até a comunidade de Itaquera, na divisa com Roraima, a bordo da Expedição Katerre. Ao longo do roteiro Resex Jauaperi, as paisagens se alternam entre o horizonte de margens largas do rio Negro e a proximidade com as copas de árvores da floresta alagada. Em oito dias de navegação, há paradas em comunidades ribeirinhas, onde escolas recém-construídas chamam a atenção em meio à floresta. Erguidas pela Fundação Almeirinda Malaquias (FAM), as construções integram o Projeto Educação Ribeirinha e funcionam como ponto de encontro entre quem chega e quem vive ali. As visitas fazem parte de uma proposta de turismo que combina a relação com comunidades tradicionais, momentos de aprendizado e pausas para se divertir e contemplar a floresta símbolo da proteção ambiental — banhos de rio, cachoeiras, praias de areia branca e lagoas de águas cristalinas. “É um mundo à parte. Aqui, a natureza é viva, ela se mexe e encanta”, define a fotógrafa Helena Bach, que participou da expedição.

Participante da expedição, Helena Bach explora a vila de Airão Velho em incursão pela floresta     Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

À primeira vista, a paisagem pode parecer intocada. A impressão, porém, é apenas parcial. Sob o “tapetão verde”, como dizem os locais, existe uma rede de comunidades que dependem da floresta tanto quanto a floresta depende delas. A bordo do La Jangada, a região é apresentada aos viajantes em camadas que unem aspectos sociais, ambientais e culturais. A começar pela tripulação, composta por 15 pessoas — as histórias e o conhecimento sobre a navegação nos rios, cheios de troncos, pedras e bancos de areias, são compartilhados durante o percurso e ajudam a traduzir a lógica de um território moldado pela água.

Ao mesmo tempo, como destino turístico ainda desconhecido por boa parte dos brasileiros, a proposta da Katerre é promover vivências capazes de despertar ou aprofundar o vínculo com a Amazônia. Trilhas na mata fazem parte dos roteiros e são conduzidas por guias que ensinam a identificar sons, insetos e animais escondidos entre as árvores, sempre no ritmo da floresta.

Aventura com conforto: o La Jangada tem ambientes climatizados, serviço de bar, academia e sala de massagem     Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Fundada há 20 anos, a Katerre nasceu da convicção de que a Amazônia precisa ser apresentada com densidade. O empresário Ruy Tone, um dos fundadores iniciais da empresa, se inspirou no turismo africano para desenvolver o modelo de negócios,  A operadora atua com três embarcações: o La Jangada — construído em Santarém (PA) —, o Jacaré-Açu e o Jacaré-Tinga, ambos feitos em Novo Airão, com design amazônico e uso de materiais regionais. Navegar na região é uma aventura, mas a viagem pode ser feita com conforto. As cabines são suítes equipadas com ar-condicionado, e os pacotes são all inclusive, com refeições preparadas com ingredientes regionais e peixes frescos, além de serviço de bar a bordo. A Katerre oferece expedições de 4 a 8 dias, com roteiros diferentes para cada duração.

Ruy Tone, da Katerre, em uma das escolas do Projeto Educação Ribeirinha      Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Durante as paradas e os passeios de voadeira, as frentes de atuação socioambiental impulsionadas pelo turismo aparecem com naturalidade, de forma integrada ao cotidiano da floresta. Tone também preside a FAM, que tem a Katerre como sua principal mantenedora. Por meio da fundação, 23 escolas estão sendo construídas ou reformadas em comunidades de Novo Airão, município com área equivalente à da Suíça e com cerca de 2.000 habitantes fora da zona urbana.

A proposta de melhorar a educação de comunidades do rio Negro nasceu a partir da determinação de Paul Clark, escocês que fundou a Escola Vivamazônia e, junto com sua esposa italiana, Bianca Bencivenni, morou na região por 30 anos. Antes, a escola de Clark era um dos pontos de parada dos roteiros da Katerre. Contudo, o escocês teve que fechar as portas para tratar um câncer — ainda assim, uma frase sua reverberou em Tone: “a gente é só uma escola. Mas talvez, se fossem 20, 30, 50 escolas, pudesse ser uma micro-revolução.” Hoje, o projeto impacta a aprendizagem de cerca de 800 alunos.

Cerca de 800 alunos são impactados pelo projeto e 23 escolas serão construídas ou reformadas pela FAM    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Na comunidade Mirituba, uma das paradas da expedição, o resultado desse trabalho se tornou concreto. Ou melhor, uma escola de madeira. Ali vivem cerca de 15 famílias da etnia apurinã. Uma das lideranças locais, Vanuza Rodrigo de Oliveira, recebe os visitantes em frente à nova construção. “Queremos resgatar a nossa cultura”, afirma. Agora, a principal reivindicação é a presença de um professor da mesma etnia, capaz de ensinar tanto o currículo formal quanto os saberes tradicionais.

O projeto conta com a participação dos moradores desde a extração de matéria-prima até a construção, o que gera renda às famílias. Com módulos que custam R$ 100 mil, R$ 150 mil ou R$ 250 mil, cada escola inclui uma casa de apoio para os professores, que raramente são nativos das comunidades. As unidades são doadas à prefeitura e ficam sob a gestão do poder público. Num segundo momento, será trabalhada a melhora do conteúdo pedagógico – também em parceria. Após as expedições, é comum que os visitantes se sensibilizem para apoiar novas construções. Ao mesmo tempo em que doações são bem-vindas, Tone é pragmático sobre o papel dos viajantes. “Só por escolher esse tipo de pacote, o turista já contribui para a engrenagem funcionar a favor das pessoas que vivem aqui”, explica. Um roteiro de quatro dias e três noites, por exemplo, custa a partir de R$ 13.750 em uma cabine com cama de casal.

Natureza viva: grupo de turistas a bordo de uma voadeira para uma saída de pesca de piranhas    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

A lógica do turismo de base comunitária permeia todo o roteiro. Um dos passeios percorre os igarapés da Resex Baixo Rio Branco-Jauaperi até a Lagoa Azul. São os próprios ribeirinhos que conduzem as canoas e preparam o churrasco de peixe na beira do rio — e, é claro, são remunerados por esses serviços. O trajeto termina em um ponto onde a incidência de luz cria tons de azul-turquesa em águas calmas da região, criando o cenário perfeito para um mergulho no igarapé.

Ribeirinhos promovem atividades de turismo em rios da Amazônia    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Para Helena Bach, que voltou a morar no Brasil após uma década em Londres, a viagem teve um caráter de descoberta. “Pude aprender sobre um lugar do qual eu não sabia nada. É um patrimônio brasileiro que não conhecemos e, por isso mesmo, com o qual não nos envolvemos”, reflete.

Praias paradisíacas revelam lado desconhecido da Amazônia    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Além das comunidades, o roteiro inclui visitas a Airão Velho, no Parque Nacional do Jaú, caminhadas até samaúmas — árvore conhecida como a mãe da floresta —, banhos em corredeiras que se revelam em meio aos rios e saídas noturnas para a focagem de jacarés. Há, também, atividades de pesca e paradas frequentes para observação de fauna e flora, incluindo a tradicional atividade em Novo Airão para a interação com botos-cor-de-rosa.

Samaúma, árvore conhecida como a ‘mãe’ da floresta    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Quem participa da expedição no mês de janeiro tem a possibilidade de acompanhar a soltura de quelônios, parte do trabalho da Associação dos Artesãos e Extrativistas Rio Jauaperi (AARJ), mantida pela Katerre desde 2010 e com apoio da WCS (Wildlife Conservation Society). O projeto protege 100 quilômetros, sete praias de desova no rio Jauaperi, e envolve integrantes de seis comunidades na coleta, incubação de ovos e cuidados com os filhotes por até 45 dias antes da soltura. Esse processo aumenta as chances de sobrevivência dos animais, cuja taxa natural é de cerca de 1%. Em 2026, a expectativa é que quase 7 mil filhotes sejam soltos. Aqueles que se dedicam à proteção dos quelônios também são remunerados como uma forma de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA).

Projeto de conservação de quelônios estima soltar 7 mil filhotes em 2026    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

“É preciso educar as pessoas para que elas retornem a esses ambientes e passem a valorizá-los”, afirma Tone. “Só assim vamos conseguir reverter, ou ao menos estancar, a perda de biodiversidade.”

Além do público brasileiro, os roteiros são bastante procurados por turistas europeus. O artista plástico alemão Holger Schmidhuber, que vive em Berlim, participou da expedição como parte de sua pesquisa para criar obras baseadas em fotografias tiradas por ele na Amazônia. “A temperatura, a umidade, a chuva, tudo é diferente para mim. Estar tão imerso na natureza é fundamental para o meu processo criativo”, relata. Helena descreve a conexão de outra maneira. “O verde me atrai. A combinação do céu, da chuva, das árvores e dos pássaros é uma experiência de vida única”, diz. Para ela, que decidiu conhecer o Brasil após anos vivendo fora do país, a Amazônia foi um ponto de partida extremamente simbólico.

Em Novo Airão (AM), há flutuantes que promovem a interação com botos    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto

Depois de uma semana de imersão na natureza, a viagem chega ao fim no Mirante do Gavião, hotel que faz parte do mesmo grupo da Katerre em Novo Airão, com vista para o Rio Negro. Ali, os viajantes têm tempo para elaborar a vivência antes do retorno para casa. Para Tone, o principal objetivo da expedição é que os turistas compreendam que a floresta é, também, um território humano. Mais do que um roteiro pela paisagem, a experiência propõe um encontro com a Amazônia real, onde natureza, cultura e sociedade caminham juntas.

Cachoeira do Guariba no rio Carabinani: ponto turístico no roteiro da expedição    Foto: Jonne Roriz/ Nosso Impacto