Um estudo conduzido pelo Instituto Polar Norueguês trouxe um dado surpreendente sobre a fauna do Ártico: os ursos-polares de Svalbard estão ficando mais gordos, apesar da redução drástica de seu habitat natural. A descoberta desafia a lógica imediata de que a perda de gelo marinho levaria à inanição imediata da espécie, revelando uma capacidade de adaptação oportunista dos predadores.
Ao longo de 30 anos, os cientistas capturaram e analisaram mais de 700 ursos-polares. No mesmo período, a região perdeu cerca de um mês de cobertura de gelo a cada década. “Mesmo assim, eles ganharam peso corporal nas últimas duas décadas, em vez de perder”, explica Jon Aars, pesquisador principal do instituto.
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Nova dieta em terra firme
A explicação para o fenômeno reside na mudança drástica do cardápio. Impedidos de caçar focas-aneladas no gelo — sua principal fonte de energia — os ursos-polares passaram a percorrer o ambiente terrestre com maior frequência. O consumo de renas aumentou significativamente, assim como o aproveitamento de carcaças de morsas, animais de grande porte que oferecem alta concentração de gordura.
Além disso, o recuo do gelo acabou gerando uma armadilha ecológica para as focas. Com menos espaço disponível, as presas se concentram em áreas menores, facilitando o trabalho dos ursos-polares durante os períodos em que o gelo ainda resiste.
O limite da adaptação
Embora os dados atuais sejam positivos para a saúde imediata dos animais em Svalbard, a comunidade científica mantém a vigilância. A preocupação é que a estratégia de caça terrestre seja apenas um paliativo temporário.
“Acreditamos que haverá um limite. Em algum momento, veremos os ursos-polares começarem a emagrecer. Não há ursos-polares em nenhum lugar do Ártico onde não haja gelo marinho durante parte do ano”, alerta Aars.
A longo prazo, a necessidade de percorrer distâncias cada vez maiores para obter alimento pode levar à exaustão física, comprometendo a reprodução e a sobrevivência dos filhotes. O equilíbrio atual em Svalbard é visto como um fôlego extra, mas não como uma solução definitiva para a crise climática que ameaça o topo da cadeia alimentar do Ártico.